quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

(Re) descobrindo a cidade

Quando você chega a uma cidade nova tudo tem um gosto especial, a primeira vez que vê as pessoas que serão suas melhores amigas daqui pra frente, ou as pessoas que inicialmente são amigas, mas o tempo passa e as leva antes mesmo de grandes emoções estarem envolvidas. A primeira vez que conhece um bairro novo, pega um ônibus desconhecido. Em uma cidade nova não há o pudor de conversar com um estranho, ninguém sabe quem você é mesmo, e então você conhece pessoas no ponto de ônibus, na fila do banco, no estacionamento do shopping.

Só há um problema, em algum momento você constrói laços sólidos e também uma rede de conhecidos, e agora existe um nome a zelar. Tudo o que eu disse acima para de fazer sentido e você sente que os olhares podem voltar-se a qualquer momento pra ti.

Uma amiga disse que estava cansada da nossa ex nova cidade, agora apenas nossa cidade. O meu processo de desapego da minha cidade natal foi muito rápido e intenso, o dela com certeza não. Mas me pegou de surpresa sua declaração. O que é estar cansada de uma cidade?

Eu sai do interior dizendo que nunca mais voltaria, chorando sim pela dor da saudade iminente, mas eu nunca mais pretendia morar lá. Aqui, agora, eu olho pro gostinho especial do começo e sinto uma saudade, e vejo que eu e todos os meus amigos de lá que estão ainda aqui comigo não são mais os mesmos. Aquilo já é passado, um tempo distante que está presente dentro dessa vida que era pra ser nova. Minha amiga está cansada da cidade, das pessoas talvez, mas pode ser que ela só queira sentir o gostinho do novo de novo. Descobrir o que tem ao virar cada esquina nova, sentir o ar de um ambiente novo.

Algumas horas depois do “estou cansada dessa cidade” fui ao meu whatsapp e olhei todas as últimas conversas, pra lembrar a mim quem é que estava fazendo parte realmente da minha vida nesse momento. Daquela época do começo alguns gatos pingados, que eu amo muito aliás. Amigos do interior alguns também, e notei que está tudo fragmentado, amizades de anos, amizades de meses, e percebi que ainda há o mistério ao virar em uma esquina, porque a vida é tão louca e tem tanta gente no mundo, que alguém novo pode surgir assim do nada. Eu não fico sedento esperando que a vida me traga uma infinidade de contatos, amizades de saídas rápidas ou coisas do tipo. Pode ser que num ano inteiro apareçam uma ou duas pessoas que façam valer a pena. E pode ser que o ano me leve mais pessoas do que traga, mas é tudo uma questão de aqui e agora, e de aproveitar o que cada um pode nos dar com humildade. É tosco, mas a questão é qualidade e não quantidade.


Tenha sempre o gosto do novo na boca estando aberto a ele, enxergue possibilidades por onde passa, veja esperança nessa sua cidade que acha incapaz de te trazer coisas novas. Há a chance, e eu afirmo que ela é grande, de você voltar a se apaixonar por esse novo lar. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O mundo é um lixo

Sua cabeça doía muito quando chegou em casa exausto, pensando em tudo que ocorrera no dia e em como gostaria de não ter vivido nada daquilo. No caminho de volta tudo girava e a náusea lhe afetava. Sentou na sua cama, abriu a janela e acendeu um cigarro. Riu de si mesmo por fumar nesse momento que seu corpo pedia por saúde.

No celular, dois amigos e um casinho lhe chamavam, mas ele estava envolvido em seus próprios devaneios e sedento por sua solidão. O mundo podia explodir, ou se isso fosse trágico demais, só ele. Sua existência era desnecessária, incômoda e insignificante. O mundo não dava a mínima pra ele pensou, sou dramático pensou em seguida. O terceiro cigarro já estava entre seus dedos quando lembrou-se de sua mãe, dela herdava as dores de cabeça, o mal humor e também a certeza de que o mundo não lhe dá nada, e que só nós mesmos nos preocupamos com nossa felicidade e bem-estar.

Ninguém o fizera mal diretamente, ele que se acabava com o álcool, os cigarros e a vontade de desaparecer de tudo e todos constante em sua vida. Porém as pessoas o irritavam, era dotado de uma postura incomum em relação à sociedade: todos são um lixo. Era passageiro, sabia. Amanhã amanheceria bem, com vontade de falar com todas as pessoas que ignorava nesse momento, mas lhe incomodava tanto a maneira como essa tristeza e essa raiva, essa angústia e agonia vinham. Queria afastar todos, para o bem deles às vezes, outras para o seu próprio bem. Ou seria prazer?

Tinha uma incerteza profunda do que fazer a seguir, tinha um desejo surreal de ver beleza no mundo. Tinha a mais pura vontade de que as coisas fizessem sentido e que um dia parasse de ser só, de se fazer só, ou melhor, de se querer só.

O personagem dessa história vive solitário em sua bolha, como tantos outros no mundo. O personagem dessa história só quer ser amado, tem vontade de amar, mas medo demais talvez, ou essa coisa estranha de querer e de repente não querer mais. Porque ele é confuso, pessimista e não entende o que sente.  O personagem dessa história pode ser qualquer um, que por um motivo claro ou não, parou de enxergar a luz das coisas. 

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

De mansinho e sussurrando.

Me acostumei com minha companhia, com minha risadas idiotas e solitárias. Fico tranqüilo na minha presença crua, falo em voz alta, converso comigo mesmo. Acreditem, chegar nesse estado de bem-estar não é fácil, o caminho passar por várias tristezazinhas de sábado a noite em casa, crônicas avulsas sobre amor não correspondido e álbuns pop depressivos. Estou bem agora, estou centrado. Estou em paz.

Então ele aparece nesse momento. De mansinho e sorrateiro, sussurrando no meu ouvido piadinhas toscas. Fazendo-me rir. Ainda em paz. Talvez por isso que demorei tanto tempo pra sentir vontade de sentar na frente de um computador e dilacerar tudo o que tem aqui dentro.  Estou em paz comigo, com ele, com o mundo. Não tenho precisão de gritar, de escandalizar. Não tenho vontade de chorar porque eu quero mais ou sinto mais, mas só posso ser usado. Não tenho passado por nada disso e é tudo culpa dele.  De sua estabilidade e segurança, de seu jeito carinhoso e recíproco. Tenho dado todos os beijos quando a vontade dá, tenho passado a mão em todos os lugares quando a vontade dá, tenho esfregado a ponta dos meus dedos por todos os cantos, fendas, buracos, lesões e espaços, a fim de lhe conhecer melhor, lhe explorar.

Meu corpo é seu, e o teu é meu e, de mansinho, a gente vai se amando. De uma forma que eu nunca fiz antes, de uma maneira saudável e calma que jamais havia experimentado.

Ele me deixa amar do jeitinho que eu sempre pensei que deveria ser, ou até melhor. Ele me permite ser eu mesmo e nesse ponto da vida é tudo o que eu precisava.

Há algum tempo vê-los saindo acompanhados da festa e me deixando dançando sozinho já não faz mais sentido. Agora felizmente o que faz sentido mesmo sou eu bem.

Me deixa passar um pouquinho dessa explosão doce de dentro de mim pra você. Nós dois vamos ganhar muito com isso. Entra nesse mar junto comigo, embarca que eu vou também. Vem de mansinho que eu vou sorrindo, mas venha. 

domingo, 4 de outubro de 2015

Pequena crônica de um dia bom

Postei uma foto de perfil nova, na qual estava sorrindo com uma parede rosa linda atrás. Uma amiga comentou “status: felizzzz”. E fiquei em choque. Fui atrás de todas as outras fotos de perfil, e percebi que escondo o rosto em muitas, ou não sorrio, e fiquei pensando: oh, será que minhas fotos de perfil acompanham meu humor? Porém, não consegui lembrar do meu humor quando tirei aquela foto em preto e branco com um cobertor tampando metade do meu rosto. Fiquei a pensar então no agora. Eu postei uma foto feliz e o que isso significava? Será que era isso mesmo?

Bem, estamos no presente, e estou ainda pensando. Uma amiga hoje de manhã pediu que eu escrevesse um texto pra um trabalho com tanta paixão quanto eu tinha escrito um conto de amor certa vez. Disse a ela que não poderia, pois estava desiquilibrado quando escrevi aquele. Naquelas minhas crises existenciais terríveis em que me meto. Ai o vazio.

Mas agora posto uma foto feliz de perfil, e constato a verdade inegável, porém eternamente fácil de ser derrubada: estou em equilíbrio. Talvez se eu estivesse um pouco menos cansado eu estivesse mais, mas no momento o que quero dizer com equilíbrio é que não to tendo crise existencial com tanta frequência, que por esse período aparentemente sei o que tô fazendo da minha vida. E isso é tão bom galera. É pisar em ovos, amanhã posso não saber mais de nada, mas hoje eu estou, hoje sei lá, as coisas fazem sentido.

Não pense que sou depressivo, não posso falar por essas pessoas. É só aquela bobeira de tristeza que vem às vezes, e a gente aceita, porque parece viciar.

Mas no momento estou em hiato, quem sabe reabilitação! Tá tudo certinho, não estou tentando jogar um álbum do Caetano ou da Tulipa Ruiz em cima de ninguém. Nem estou a ponto de destruir grandes amizades. Muito menos sentindo o vazio ao ficar sozinho.

Esses dias até fui no pico aqui perto de casa. Minha amiga Jaqueline me deixou sozinho por algumas horas, e entediado de ficar em casa andei alguns minutos até uma vista incrível. Eu fumei um cigarro lá e me senti tão bem.

Como disse, amanhã tudo pode voltar a não fazer sentido de novo. Sei que muita gente passa por isso. Mas nesse momento, tudo faz, eu dou voltas comigo mesmo, eu amo meus amigos, tô um pouco sem vida pela faculdade e trabalho, mas tá tudo no lugar.

Isso não é como um diário. É uma pequena crônica de um dia bom. 

domingo, 27 de setembro de 2015

Não há nada mais que te impeça?

- É claro que não é obrigatório para elas, o que fariam aqui? Sairiam gritando por aí? Hahaha.
Os rapazes à volta concordaram e eu, discretamente, revirei os olhos pro comentário machista. Não disse nada, pois sabia que não obteria apoio de ninguém. Todos concordavam que mulheres eram inferiores. A fila está enorme e dentro daquela sala escura de uma estação de trem abandonada coisas terríveis deviam estar acontecendo.

Chega minha vez e sou colocado numa meia cabine, separada das outras por panos verdes feios. Fico de frente pra outros rapazes, em sua maioria também magrelos, e me pedem pra tirar a roupa. Com timidez e agradecendo por não ter homens bonitos que poderiam me excitar no momento, fico nu e sou obrigado a fazer alguns testes, como ficar na ponta dos pés. Logo depois me encaminham pra um lugar onde devo levantar um peso e me preocupo, sabendo que não consigo levantar quase nada. Com absoluta convicção levanto o peso e estou certo: não consigo muito e minhas costas quase se destroem. O capitão ou sei lá quem, negro e muito alto, com olhar mal encarado ri de mim. Não com cumplicidade, de quem pode ter sido humilhado no seu alistamento militar também, mas com um deboche e eu me sinto muito mal por isso. Odeio o tom de superior das pessoas sobre mim, isso me enche de raiva.

Depois da humilhação pública, felizmente na frente de pessoas que espero nunca mais ver, me dirijo a algumas cadeiras e espero. Consigo ver algumas mesas com moços mal encarados do exército e rapazes novinhos na frente sendo entrevistados. O que eu vou dizer? Noto em uma das mesas mais distantes um rapaz claramente gay, com uma jaqueta claramente de couro muito falsificado, com um cabelo claramente de chapinha conversando com um membro do exército (membro, pois sei lá como identificar tenentes, capitães, soldados, etc). Me dá um medo que esse menino franzino, desses que poderiam ter sido zoados o ensino médio inteiro por ser “bichinha”, possa estar sendo humilhado por seu jeito de ser ali naquele espaço.

Ele levanta-se da cadeira e vai para uma sala menor na estação. Espero que tenha sido liberado. Me chamam, e vou para uma dessas mesas.

O homem que me atende com toda certeza era alguém grande dentro do exército. Talvez fosse seu olhar penetrante, ou a boca fechada e reta, de quem não sorri há muito. Ele diz que posso sentar e começamos a conversar. Pergunta da minha vida e se quero entrar para o exército.

- Não quero senhor – eu digo. Ele me pergunta o porquê, e eu respondo que vim para cidade apenas para estudo, que tenho essa obrigação para com minha família, e que não seria apropriado para mim. Seu olhar permanece imóvel e ele evidentemente nem se abalou com minha declaração. Com um dos tons mais sérios e de deboche que já ouvi na vida, superiores até ao da minha ridícula ex-professora de matemática, ele diz:

- Só isso?

E meu chão desmorona. É isso. Vou entrar para o exército, e cenas de mim acordando às 5 da manhã para fazer exercícios, ou dando para 7 soldados ao mesmo tempo em um canto escuro do batalhão passam pela minha cabeça. O que poderia chocá-lo e fazê-lo desistir de mim?

- Não há nada mais que te impeça de servir?

Há sim. Lembro-me do menino franzino e de jaqueta falsificada de couro. Há algo em comum entre nós e quem sabe a sala que ele entrou é a sala de dispensa... Com medo, de que se contasse ele poderia destruir minha vida, ou se contasse, ele poderia realmente me dispensar, sem segurança nenhuma digo para ele que sou gay.

Sua reação muda levemente, mas ele me diz que ser gay não é motivo para não servir, que ele estaria sendo preconceituoso se me dispensasse por isso. Seu tom é de presunção, ele se revira na cadeira em gozo pela situação. Acho que está se divertindo.

Eu, na arte da persuasão que nem sabia que eu tinha, continuo:
- Seria preconceito se eu quisesse, e o senhor me dispensasse por isso. Mas eu não quero. A minha vida toda eu me identifiquei mais com meninas, eu nunca me dei bem com garotos. Eu não me imagino servindo, isso não é pra mim.

Eu imploro, meus olhos transmitem todo o medo. Nós garotos, quando chegamos a certa idade, somos aterrorizados com a perspectiva de servir ao exército. É tratado por familiares e pessoas próximas como a coisa mais terrível que pode nos acontecer.

- Posso falar com meu capitão sobre isso, e ver se ele te libera. Você quer isso?

Meu mundo para. Ele seria gentil desse jeito? Ele faria isso por mim? E o capitão dele, faria? Ou isso tudo é uma piada? Se ele for lá, isso poderia me foder, eles poderiam destruir minha vida só pra ter uma piada pra contar no fim do dia. Deveria confiar?

Mas não há alternativa, eu preciso confiar no bom das pessoas, mesmo que no fundo eu seja só mais um pessimista no mundo. Decido seguir em frente e peço que ele fale com seu superior.

O homem levanta-se da cadeira e consigo olhar de longe ele chegando em um homem ainda mais imponente que ele. Se demora por alguns minutos e eu começo a morrer por dentro.
Ai meu Deus vou servir ao exército, vou servir ao exército, vou servir ao exército. Minha vida acabou. Vou me matar. É isso, pra que continuar? Isso não é pra mim. Como odeio o Brasil, como odeio ser obrigado a fazer alguma coisa. Cadê a porra do livre arbítrio ou dos direitos democráticos?
Ele volta pra mesa, entrelaça os dedos e diz que estou liberado.

Estou liberado.

Fico confuso de início e quando a ficha cai dou um sorriso e agradeço. Sem muito estardalhaço, claro, apenas me levanto e vou para onde ele me indicou. No mesmo dia faço o juramento a bandeira, e digo que em caso de guerra darei minha vida ao país. Bom, quando tiver uma guerra eu me preocupo com isso. Noto que o menino de mais cedo não está junto e me pergunto se ele foi pra próxima fase. Pobre coitado.

Depois do fim do juramento pego minhas coisas e saio da estação. Em alguns meses pego o meu certificado de reservista e posso contar que nunca mais voltarei aqui, com exceção de guerras é claro. O alívio toma conta de mim e certo agradecimento por ter tido coragem de assumir quem eu sou e o que quero, ou não. 

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

A escolha é sua

Às vezes as coisas soam como erradas, como coisas que não deveriam ser feitas, e eles nos avisam “olha vai dar merda isso aí”. E você finge que ouve, mas não acredita que coisas que soam como errados possam ser de fato erradas. Então você mete a cara, o pé e toda sua coragem  nessas coisas meio sem sentido, que todos dizem que é errada.

Um amor pode ser errado?
Uma escolha importante pra vida pode ser errada?
Não é tudo tão subjetivo?

A gente tem o costume de julgar o rumo da vida dos outros, mas o rumo da vida dos outros só diz respeito única e exclusivamente ao outro!
“Olha você tem que fazer uma faculdade...”, você não precisa se quiser.
“Bem, acho que você deveria ter filhos...”, isso não é uma verdade.
“Você não deveria continuar com ele, ele te faz mal”, pode até fazer, muito provavelmente faz e esse amor é horrível, mas só nos resta dar conselhos, não é?

Às vezes certas coisas soam como erradas, confundem-se entre desejo, ética e pé no chão, nesse mundo que de tão louco nos força a viver em estado de vontade.

Às vezes certas coisas parecem erradas, e são mesmo.  Mas até as coisas erradas podem nos dar algo, mesmo que exista muito sofrimento até o momento de sabedoria e discernimento do que foi aprendido. Se as pessoas te dizem “não faça isso ou aquilo”, e você acha que deve fazer, faça. A vida não é só contada com histórias onde todas as variantes estavam controladas e tudo era perfeitinho. Talvez você se ferre, mas talvez o que é um erro pra maioria das pessoas seja pra você um grande acerto. 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Os homens se vão

Ele me beijou e partiu.

Não disse quando voltaria, nem mesmo se voltaria. Partiu num domingo, fim de tarde. Sua silhueta esguia sumia no horizonte e me perguntava na frente do portão de casa se o veria novamente. Suas partidas eram sempre assim, com um beijo e um até logo que não saberíamos dizer até quando existiria. Ele partiu e deixou em mim a plenitude. Isso sempre foi o que mais amei nele, como não me consumia, não me sugava, pelo contrário, me trazia paz e calma. Mas voltaria? Deveria acreditar nesse amor? Amor. Uso palavras fortes quando sinto coisas que me tiram da zona de conforto.

O último sempre que partia me destruía. Sabia dos efeitos nocivos que ele podia me trazer e mesmo assim ia sem dizer adeus ou até logo. Eu o esperava sabendo que voltaria dizendo que me amava e que só eu o entendia. Mas não, eu não o entendia. Não conseguia compreender porque era necessário fugir de mim. Hoje talvez eu entenda. Hoje talvez eu entenda todas as pessoas que fogem do colo e da segurança.

Porém, mesmo que entendesse não poderia perdoá-lo. Todo o vazio que me foi imposto sentir... Toda a falta que eu senti com essa dor e esse desejo dele junto a mim...

Ele voltou. Voltou e eu disse não. Disse um não bem grande e com firmeza porque sabia que ele retornaria de mãos vazias e que nada poderia me acrescentar.

Eu o esqueci, e há pouco no portão quando um outro me beijou e partiu eu pensei se ele por alguma razão seguiria a conduta do outro e não voltaria tão cedo. Se só voltaria quando não tivesse lugar pra ficar.

Pergunto-me se sou um bom colo, um bom aconchego, pois os homens voltam e me consomem sem pedir licença e obrigam-me a aceitar essas migalhas de atenção, já que expõem e estimulam em mim meu lado mais vulnerável e necessitado de carinho humano possível.

Eles partiram. Um me dando um beijo e um até logo. O outro dizendo que nunca mais voltaria se eu não abrisse a porta. Um foi sumindo aos poucos, até que seu corpo contra luz virou um borrão e de borrão virou saudade. O outro deixou o vazio que eu sabia que deixaria, mas que eu jamais imaginaria ser capaz de superar. Um ainda está presente em memórias, em desejo. Mas me lembro do pacto que fiz a mim mesmo, das outras preocupações que tenho e das demais vontades que precisam ser atendidas.

Um partiu me dizendo meio que entrelinhas que gostava de mim sim. O outro partiu dizendo que me amava. Os dois, tão diferentes de si, que me apresentaram e que nutriam por mim sentimentos tão difusos, esses dois decidiram partir cada um no momento que acreditou ser melhor, mas ambos foram e me deixaram. Mas por incrível que pareça, em todos os momentos que foram, eu estava preparado.


Podem ir, com beijo ou sem beijo. Eu não prometo esperar, pelo contrário, não irei. Só quero que saibam que ao partir não quebraram algo aqui dentro de mim, e sim deixaram o terreno mais sólido para que o próximo venha, não me destrua e possa também partir, calmo, sereno e livre. 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Talvez eu entenda amor de amigo.

Eu quis sofrer por amor, eu quis ser arrebatado por essas coisas que dizem que a gente sente quando ama. Eu não entendo de amor. Sou sincero o suficiente pra rir de mim mesmo e gritar que não entendo nada de amor. Mas eu quero amar. Eu já escrevi infinitas vezes como eu amo demais, como há paixão dentro de mim que precisa ser consumida. Mas eu não sei amar. Não sei amar porque não me deixam. Porque todo esse amor que tem aqui dentro de mim, fica comigo mesmo. Então, não fui arrebatado pelo amor, por mais que eu quisesse. Não fui, porque não me foi permitido. Não fui, porque não deu tempo. Eu quis chorar no chão da cozinha, eu quis que aquele álbum do Caetano fizesse sentido. Eu quis com plena consciência, chorar por alguém na frente de um filme idiota, me jogar na cama achando que não há mais sentido pra vida.

Mas eu não fiz nada disso.

Eu não fiz, porque não deixaram. Porque não deu tempo. E eu segui. Sem mandar uma mensagem falando o quanto eu poderia amá-lo se ele deixasse. Eu segui sem falar muito bem sobre o que eu sentia com meus amigos. Eu segui sem escrever as dezenas de textos tristes e apaixonados que eu achei que escreveria, pra variar um pouco dos textos sobre o vazio e sobre o nada que geralmente faço. Eu segui sem entender poesia, sem me jogar no chão da cozinha, sem destruir minha vida acadêmica e profissional porque só conseguiria pensar em alguém. Não. Eu nem liguei, eu não sofri por amor, porque não me deixaram, porque não deu tempo.
A vida não parou de fazer sentido. Eu não fui arrebatado. Continuo aqui, achando que não sei bem amar, ou sei, mas não me deixam, não dá tempo.

O amor não é algo tão universal quanto dizem, tem gente que... Simplesmente não entende. 

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Esvaziamento

O vazio chega de mansinho. Não avisa, não manda e-mails, não se importa se sua presença incomoda ou se é inoportuna. Ele vem assim, consumindo tudo que vê pela frente. Me resta apenas aceitar. O processo de esvaziamento é natural após se preencher de vida por algum tempo. O vazio não é dor ou angústia, o vazio é vazio. É o nada. É o você com você mesmo. O vazio é o nosso contato com a nossa parte mais íntima, mais secreta. O vazio é o não sentir nada, depois de sentir muito. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O que não quero pra minha vida

Aos 16 anos a gente acha que sofre tudo o que um ser humano pode suportar, que logo menos chegaremos num dia que tudo será melhor e seremos felizes com nossa autêntica vida universitária e que  todos os problemas ficarão pra trás. Aos 19, no qual me encontro, a vida universitária já existe, e existem algumas poucas diferenças em relação aos 16 anos: agora você tem responsabilidades reais como manter-se vivo com o que cozinha, ir bem academicamente, agora você também transa, o que era apenas uma possibilidade há 3 anos na cidadezinha do interior. Agora também você é um pouco mais seguro com relação ao seu corpo, e possui amizades mais intensas e uma cabeça mais aberta pra tudo. Mas para por aí. De resto, continua tão perdido quanto antes (porque fazer uma graduação em momento nenhum quer dizer que você sabe que rumo está tomando necessariamente), e com preocupações em relação ao futuro. E pior: agora tem amigos mais velhos, e eles mesmos aos 24 anos continuam perdidos e você só consegue imaginar como a vida é triste e como ficará ainda perdido por um bom tempo, se é que vai se encontrar.    

Por mais que digam que a vida é curta, eu paro e penso: olha minha cabeça aos 16 e olha minha cabeça aos 19. São só 3 anos e você pensa totalmente diferente. Imagina os 30! Os 40!

Ok, admito que não faço ideia do que quero fazer ao certo e como quero chegar nessas idades, mas estive em campo coletando informações e cheguei a algumas conclusões de como não quero chegar. Não quero ser um esquerdinha e Cult frustrado, que nunca fez nada da vida realmente útil, que nunca sentiu que seu trabalho fosse útil pra alguém de alguma forma importante. Não quero ser Gandhi, Steve Jobs ou a Madonna, mas quero ter a certeza aos 40 ou em qualquer idade futura, que fiz algo importante nessa Terra. Tenho medo de em algum momento passar a me contentar com um trabalho medíocre, com pretensões e salário medíocres, que possam me dar algum divertimento em finais de semana medíocres com um carro medíocre. Não quero ser nenhuma espécie de milionário, mas quero chegar a algum lugar, algum bom lugar. Que o destino me livre também de ser um desses “tios” desconectados dos mais novos, não to dizendo que quero pagar de novinho, mas não quero ser um desses quarentões motivos de piada de jovens (os quarentões que atualmente eu acho ridículo).                                                                                                                                                                                                                       
Tenho medo também que nesse caminho eu nunca encontre uma paz interior que dizem por aí que existe. Com Jesus eu já sei que nunca vou encontrar, pode ser que exista alguma religião aí pra mim, mas nem precisa ser assim, acho que a paz interior tem muito mais a ver com momentos em que você se sente completo,  não importa com o quê. Ai, e, por favor, que eu não me torne esse tipinho que come pão sem glúten, ou que não toma suco de caixinha.


Espero ter excitação pela vida em todas as idades, que eu ame o que eu faça, já que hoje aos 19 eu não sei bem o que é. 

sexta-feira, 31 de julho de 2015

A tal geração Z

Muito se fala da tal geração Y, que atualmente esquenta o mercado profissional e é a vanguarda da criatividade e inovação. Essa tal geração, diferente das outras, não se contenta com pouco, não quer sentir-se presa. Não gosta de trabalhar em escritórios e, se for para trabalhar, que tenha um playground para desanuviar a cabeça e relaxar. É uma geração viciada em tecnologia, e-books, e que sonha em ser YouTuber. Eles são o máximo e se acham o máximo. Mas daí, o tempo passa, e  depois da Y vem uma ainda não tão falada, na qual eu que vos falo pertence, chamada Z. Essa geração, que diferentes fontes afirmam diferentes anos para começar, mas no geral inicia-se em 1995 ainda não está no mercado de trabalho, nas rodinhas intelectuais, ou mudando muita coisa. Ainda engatinham na graduação, em estágios e muitos ainda estão no ensino médio ocupados com, bem coisas de ensino médio. Mas é aí que mora nossa questão fundamental: como seremos? Como seremos quando tivermos a idade que hoje a tão aclamada e perturbada Y está? Se eles já têm pouca paciência pro trabalho, se acham a última bolacha do pacote e os inquestionáveis transformadores do mundo, o que resta para a pobre, ingênua, e viciada em Snapchat geração Z?

A princípio, como principal característica que afirmo termos, é a impaciência e o tédio. Impaciência para fazermos coisas das quais não gostamos e acreditamos, e tédio para levar a vida quando fazemos isso. Nesse pouco tempo de vida que tenho, no auge dos meus 19 anos afirmo, que me enjoo fácil de qualquer coisa, e com certeza um trabalho não seria diferente. Seria na nossa geração então o término dos serviços chatos e burocráticos? Faremos uma revolução drástica no mundo, onde todo mundo possa em fim, ser feliz? Queremos mesmo a felicidade?

Talvez não. Talvez não sejamos assim tão de vanguarda como nossos veteranos Y, talvez sejamos apenas ainda mais apáticos e individualistas, um aprofundamento do que os Y hoje são. Quem sabe, talvez, mais politizados. Já que, na nossa geração tá na moda defender minorias. É, pode ser que essa seja nossa diferença, uma geração que lute por mais igualdade, um geração que trabalhe em escritórios, mas escritórios cheios de diversidade. Porque, afinal, somos os maiores consumistas e, consumimos acima de tudo diversidade. Tudo que é igual, fácil, comum nos cansa e rapidamente repudiamos. Muito possivelmente se o capitalismo e os Iluminati quiserem se manter no poder terão que dar espaço as exigências dessa geração mimada, que mesmo individualista, quer ter o direito de fazer o que quiser, com quem quiser e como bem entende.

Escrevendo esse texto e pensando em todas as pessoas próximas da minha idade percebo realmente essas semelhanças. Acho que por fim, posso dizer, que é cedo pra afirmar que seremos assim ou assado em escritórios, ou que derrubaremos o sistema porque não temos mais nada pra fazer, mas de fato, quando estivermos no nosso auge que sabe lá Deus quando será, faremos um mundo onde as pessoas cagam menos regra na vida do outro e todo mundo possa ser quem quiser. É, dá pra dizer que essa é nossa principal bandeira e característica máxima. A gente quer beijar quem quiser, dar liberdades pra quem quiser sem dar explicações pra ninguém.


A geração Y que me perdoe, mas ainda são um tanto caretas pro que temos em mente. X e Babyboomers que se preparem, uma nova era está para começar, só não vê quem não quer. 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

O Homem que não é ótimo, mas é suficiente

Ele era ótimo nessa coisa de me fazer odiá-lo, de me fazer desapaixonar. Eu me penetrava em sua vida, devorava seu corpo e o amava, mesmo que com gestos contidos e despretensiosos. Ele me penetrava, mas apenas momentaneamente, devorava meu corpo e nos deliciávamos, mas não me amava.

Era sóbrio de si, das suas pretensões, sabia o que queria. E sabia que não me queria. Devorava meu corpo, e mesmo que sem querer, minha alma. Estava lá eu, jogada no chão do meu quarto ouvindo um álbum que decidi quer seria dele, da minha história com ele. Sabendo o que queria, ele só me chamava quando era oportuno. Só me amava quando precisava amar. E eu aceito migalhas tão facilmente. Sou a louca, a carente, a emocionalmente vulnerável, que acha que pode ser amor se ele tem tesão por mim, pela minha bunda, mas também é gentil e carinhoso. A gente ama mesmo é a bunda um do outro. Mas eu queria saber até quando você vai pegar na minha bunda, e eu na sua, e fingiremos que é só isso que queremos um do outro?

 A gente tá nessa agora, e eu estou completamente jogada num expectativa que eu mesma criei. Me desculpa. Ame a minha bunda em paz, só não deixa de ser carinhoso comigo, só não deixa de ser o homem que mais me amou, que mais amou o meu corpo, o meu cabelo e o meu jeito de ser, mesmo que o seu amor seja só essas migalhas. As suas migalhas já são muito mais do que recebi a vida inteira. 

domingo, 5 de julho de 2015

Crônica da vida que não vivi.

Há algum tempo escrevo sobre as dores de ser eu e, de vez em quando, sobre as felicidades de ser eu também. Mas em geral, com as dores, eu me afogo no vazio, na vontade de me sentir completo. Em épocas mais fartas me machuco por desejar o que outro alguém não pode me dar, ou por não entender que estar com alguém pode ser simples, pode ser sem expectativa, leve e divertido. Nunca fui leve e divertido, sempre invejei quem fosse. Mas então, porque não trabalhar isso em mim?

Vi uma frase certa vez, que pode ser até de um autor famoso, mas que nunca passou pelas minhas referências que diz “meu amor tem assas, não algemas. Meu amor é ninho, não prisão”. Relendo-a agora, muito provavelmente é só de um pensador desconhecido ligado nuns papos filosóficos. Mas o que eu pude tirar dessas palavras aí, é o meu desejo de ser livre e chegar nesse ponto.

Ao contar minha curta história de romances ou de autopreenchimento, é nítido como sou sempre apunhalado por um qualquer que não tá pronto pra me amar. Eu sempre me deixo apunhalar. Nos últimos tempos, comecei a me amar mais, me aceitar mais e olhar pro espelho e enxergar beleza. O clichê que dizem por aí se mostrou verídico e atraí pessoas. É claro que essas novas pessoas tão interessantes, me fizeram agir como eu sempre agi: pequeno, ciumento, possessivo, medíocre. Por que não explorar mais? Por que não me desconstruir? Por que não levar com leveza? Por que não sair dessa bolha?

Lembrei-me da frase, lembrei-me de montes tibetanos. Lembrei-me de tudo que passei com outros moços bonitos e encantadores, e como não trocaria essas experiências por nada, mas como também gostaria que tudo tivesse sido diferente.

Eu sou um desses fracassos no amor, desses perdidos em crônicas sujas, vazias e chatas. Sou tudo isso aí ainda muito novo, porém ainda muito cheio de vida pra aceitar qualquer definição. Li uma vez que se definir é morrer um pouco, porque ao se definir não pode vir mais nada novo, você já se limitou, não tem mais nada a dizer. Eu não quero me limitar. Quero explorar esse mundo desconhecido, encontrar coisas para amar, e amar direito todas essas coisas.


Lanço nesse momento a minha carta aberta a mim mesmo, sobre explorar o mundo, aprender a amar, a cuidar, a livrar e me livrar de qualquer amarra. A viver um amor, e tentar deixa-lo o mais puro possível. Essa é a minha missão. E encaro todos os desafios a minha frente com coragem, pra quem sabe, ter um final feliz pra contar. 

sábado, 13 de junho de 2015

Sem limite para amar

Essa semana eu dei um fim na gente. Ainda tinha esperanças, ainda queria chamar sua atenção, ainda pensava que talvez pudéssemos ser um casal. Evitei ao máximo pensar nessa palavra, “casal”, juro, mas não deu. Tentei dizer pra mim mesmo que encontros casuais e tempinhos bacanas juntos eram suficientes, mas não rolou. Eu percebi pelo que eu realmente tô em busca. Pode até ser que no começo isso seja suficiente para mim, mas eu sempre vou acabar exigindo mais das pessoas. E você não poderia me dar mais. Desde o primeiro encontro eu percebi isso, percebi seu jeito descontraído de levar a vida. Jeito esse que eu invejo muito, mas não consigo nem de perto ser. Não que eu esteja cansado de viver casinhos, pelo contrário, consigo extrair tanto de caras como você, que surgem do nada, porém caras como você que surgem do nada me levam pro nada, e eu fico assim, por algumas semanas no limbo, com meus amigos perguntando se tá tudo bem e eu dizendo que sim, rindo das piadas deles como se realmente tivessem graça, vivendo como se eu quisesse realmente estar em qualquer lugar que não no seu abraço. Vendo qualquer coisa que não seus olhos, beijando qualquer coisa que não seus lábios.

Aceitei pra mim mesmo que me apaixono fácil, por pequenas coisas e isso não tem nada de errado. É difícil, pois fico sempre nessa de viver coisas pequenas, que não levam pra lugar nenhum a não ser eu triste, cansado e querendo mais. Tô assim agora, mas enfim decidi que tenho que ir pra próxima. De fato, me apaixonei por nossos momentos juntos, todos a minha volta perceberam essa felicidade momentânea da qual desfrutei. Passou no momento que eu comecei a querer mais e esbarrei no seu limite. O meu limite de amar é tão infinito que eu esqueço que outras pessoas possuem barreiras.

Por um tempinho, olhar as árvores teve mais graça, os pássaros eram mais engraçados, as pessoas mais bonitas. Hoje está tudo normal de novo, e fico muito entristecido em saber que preciso de alguém pra me fazer olhar pras coisas de forma diferente, mas isso não são pessoas, e sim paixão, não é? Eu não vou falar que não sinto mais nada, que se você me enviar uma mensagem eu não vou querer gritar que sim quero sair com você, e ir a seu encontro e te destruir com meu amor, mas eu afirmo que sei que chegamos ao fim, que se continuar só vou me machucar.


Obrigado por ter me dado experiências novas, por ter feito meu ano um ano mais feliz. Te odeio por não me amar, por não me procurar mais, mas por igual te amo por ter andado de mãos dadas comigo, por ter me apresentado amigos seus, por ter me deixado beijar cada pedacinho do seu corpo. Pode ser que você não me considere nada, que se alguém te perguntar se você viveu alguma história interessante esse ano, eu nem esteja na lista, mas você meu bem, por algumas semanas seguidas, foi tudo pra mim. E o meu tudo é grande demais pra que eu ignore. 

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Anônimos

Era tarde da noite, e ele estava em sua janela fumando e pensando. Encarava o céu como se buscando alguma explicação nas estrelas. O segundo lia teorias de Freud sentado na cama, sem muito se preocupar.

O primeiro fala:            
- Acho que devemos dar um tempo.
- Um tempo?
- Sim, um tempo.
- Você sabe o que “tempos” significam né?
- O que?

Pausa

O primeiro se lembra de como o conheceu. Estava atrasado para o encontro com os amigos em um bar. Ao chegar, foi apresentado a esse amigo de sua amiga, calouro de Psicologia. Foram fumar algumas vezes, mesmo que o segundo não fumasse frequentemente, e se deram muito bem, teorizando sobre tudo que era possível, o último álbum daquela cantora pop, a economia do país, a situação da Ucrânia, sexo. Seus amigos em comum deixaram que um futuro psicólogo, e um futuro publicitário, o primeiro perfeccionista, que acredita saber de tudo e chato, e o segundo, perfeccionista, que acredita saber de tudo e ainda mais chato se entendessem e se conhecessem melhor.  Saíram mais algumas vezes, e viram que combinavam. Publicitários são charmosos também, e psicólogos são por iguais encantadores. Não demorou muito e se apaixonaram.
De volta à janela, o céu não lhe dava respostas. O que queria afinal? Estava finalmente com alguém que o preenchia. Não sentia mais medo da carência. Sentia-se completo, mas, e aí? O que viria a seguir? Tempo.

- Me desculpe.
O segundo para com os textos.
- Pelo quê?
- Por pedir tempo.
- Você não tem que se desculpar.
- Estou perdido.
- Todos estamos.

Lembrou-se do dia que juntos, nadaram nus na piscina de uma festa. Assim mesmo, sem pudor. Tinham-se beijado apenas uma vez, e ainda existia aquele frio na barriga que o começo de algo proporciona. Sem pestanejar, pularam e, lá na água, na frente de todos, beijaram-se pela segunda vez e souberam imediatamente que estavam apaixonados.
Como poderia ele então, querer um tempo?
O quarto era silencioso, apenas ouvia-se as folhas do xerox sendo viradas, carros distantes e o barulho do cigarro sendo tragado, porém não doía, não era torturante. O silêncio deles era paz, era conforto.

O primeiro, ainda tentando se desculpar diz:
- Desculpe-me, acho que errei com você.

Eles não se olham nos olhos, continuam com suas atenções para seus respectivos interesses. É uma conversa trivial, dessas de cozinha, de antes de dormir, tomando chá. O primeiro sentia-se perdido. Confundira-se todo. Acreditou mesmo que felicidade ou qualquer noção do que ele faz com a vida dependia de ter alguém a seu lado. Não. Aparentemente, é bom e reconfortante ter alguém, mas suas dúvidas... Elas estarão sempre presentes.
O segundo sabia disso, sabia que não podia transformar seu amor numa ilha de segurança. Que isso só dependia dele. Psicólogos e sua sensatez.


O universo, Deus ou talvez o cosmo deixaram um futuro publicitário e um futuro psicólogo se apaixonarem. Não os punia, mas os marcava pelo drama, pela intensidade. O primeiro termina o cigarro. Sabe que não precisa se desculpar mais. Vai para cama e tira os papéis da mão do segundo. Beijam-se, e ali, naquela meia luz, naquele apartamento anônimo da cidade, fazem amor. 

domingo, 31 de maio de 2015

Meu dia

     Acordei hoje sozinho, num dia chuvoso e com várias coisas pra fazer. Podia ser mais um domingo daqueles que me torturo por estar só, que minha mente borbulha pedindo para que eu veja gente, que eu me ocupe não com livros ou música, mas com companhia. Mas decidi que hoje seria diferente. Eu não preciso sempre estar com alguém para estar em paz. Decidi me dar minha própria paz. Sei bem que sou inconstante, e tudo que escrever agora pode ser diferente amanhã, mas hoje decidi dar um tempo pra mim. A chuva está lá fora, caindo aos pouquinhos limpando as ruas sujas da cidade e estou aqui dentro, limpando tudo de ruim que estava preso. Estou em um tempo tão bom, sabendo o rumo da minha vida e isso é tão bom. Tenho planos, tenho sonhos e eles não parecem inúteis, vagos. Quero aproveitar esse tempo bom, antes que ele escorra por entre meus dedos e eu me sinta perdido. É tão maravilhoso saber o que está fazendo, tão incrível acender um cigarro e apenas sentir nostalgia, sentir paixão pelo mundo, e não tristeza ou solidão. Agora, a dualidade dos meus olhos, que enxergam tristeza e paixão pelo universo está descompensada, e apenas vejo paixão. Como disse, não sei até quando irá durar, mas resolvi aproveitar.

       Coloquei aquele novo álbum daquela cantora de mpb, que nem sou ligado, mas por alguma razão começou a me tocar. Vou acender meu cigarro na janela e passar o dia assim. Até disposição para com a faxina eu tô! Tem ainda aquele livro do Caio Fernando Abreu, que vou devorar com certeza, e que me traz tanta emoção! Vou estudar para as minhas provas, vou ler meus livros atrasados e ouvir quantos álbuns de mpb forem possíveis. Tudo isso comigo mesmo. O dia não será sufocante, pois decidi e fiz um contrato comigo mesmo. A vida pode ser tão calma quando você decide fazer as pazes com a solidão, com o seu deus. Eu resolvi fazer, e espero um dia onde a minha felicidade só depende de mim. 

sábado, 30 de maio de 2015

A palavra Adeus

O texto abaixo escrevi há meses pra ti. Pensava que tínhamos chegado ao fim, mas estava enganado. Superamos e seguimos em frente essa crise, mas coisas inevitáveis sempre voltam. Eu já sabia que sim, um dia teria que dizer adeus. E a cada briga, a cada desentendimento, ficávamos mais distantes. Não nos reconhecíamos, e ao pensar nisso me doía. Não queria e ainda não quero que nos tornemos estranhos. Nem tudo é fácil, porém.
Escrevi esse texto quando não me imaginava sem você. Hoje, isso já é uma realidade. Ainda é dor, ainda é vazio, contudo sei que posso viver sem qualquer pessoa. É, acima de tudo, nostalgia. Escrevo agora ouvindo nossa música, com saudades, e desejando pra você todas as coisas que sempre quis. Me desculpe por tudo. Me desculpe por não tentar tanto. Agora, somos pessoas diferentes, e você será inesquecível. Mas, finalmente posso dizer, mesmo sem outro alguém, mesmo com insegurança, que virei a página.

Adeus.

Pra você, de meses atrás, mas nunca menos eterno:
“Eu sempre tive medo da palavra adeus. Sempre tive medo de como ela podia me trazer angústia e vazio. Eu tenho mais medo dela agora, quando sei que sua chegada é inevitável.
Por muito tempo achei que para sempre existia mesmo. Pobre de mim. Até a mais forte das amizades, o mais complexo dos laços, pode simplesmente ir. E eu já sabia disso. Sabia pela formação de nós dois. Nós crescemos juntos, passamos por muita coisa juntos. Eu te conheço incrivelmente bem, e você conhece uma parte de mim que escondo de todos. Você talvez seja a pessoa que mais me conhece no mundo todo. Mas agora eu tenho que te dizer adeus, e o pior é que sempre soube que esse dia chegaria. Talvez tenhamos mesmo, sido feitos um pro outro, talvez eu nunca encontre ninguém tão perfeito quanto você, mas estou orando agora para que isso não seja verdade, para que os tantos anos que ainda me restam sejam repletos de amor. Mesmo que não seja o seu.
Eu sempre soube que terminaríamos com um adeus. Só não imaginei quando seria. Eu sempre soube que você um dia seria vazio. Eu só não podia imaginar que antes mesmo do adeus você já seria.
Você leva embora contigo uma parte só sua. Uma parte que nem mesmo você saiba, talvez. Eu me pergunto agora com quem conversarei. Com quem mostrarei meu lado vulnerável. Quando o vazio me incomodava era a você que eu recorria. Quando eu não me amava era você que me amava. Quando eu não me queria, você estava lá para me ouvir. Mas agora eu tenho que te dizer adeus, pois já faz algum tempo que não nos completamos dessa forma. E se já saímos de momentos ruins, esse parece o nosso grande poço final. Eu te amo. Eu sei que é amor. A sua ausência já é dor e eu nunca senti isso antes. Mas agora é adeus. Sempre soube que seria.

Me rastejo agora num emaranhado de solidão. Num emaranhado que um dia você cuidava. Vago agora em mim mesmo. Não me reconheço, nem sei pra onde vou. Eu só sei que você agora não está do meu lado, e isso me consome. Eu só sei que agora você finalmente virou vazio. E por mais que eu soubesse que aconteceria, eu jamais imaginaria que doeria tanto.”

sábado, 2 de maio de 2015

Madrugada

Estavam todos no bar, dançando e bebendo, acreditando que eu estava ali naquele momento com eles. Beijavam-se e gastavam rios em seus cartões platinium. Eu bebia pouco, fumava muito, e por mais que gostasse de dançar, com aquela música ruim e naquele momento, só pensava em dormir. Nem era cansaço não, era falta de vontade de estar ali. Não me levem a mal. Amo meus amigos, mas sou instável e mimado e me emburro fácil, me canso fácil, me irrito fácil e me entristeço fácil. Sento em um banco e sei que dali não irei mais sair. É o meu momento da festa, onde só espero que todos também se cansem e possamos ir embora. É claro, era apenas uma da manhã, e eu provavelmente ficaria moribundo ali por algumas horas. 

Meu celular, que felizmente trouxe imaginando que precisaria me distrair com ele em algum momento, toca. Perco a chamada mas há uma mensagem sua no whatsapp. Me procura. Eu respondo, talvez você ainda possa me render algumas risadas nessa noite mesmo que eu já esteja sem expectativas sobre nós.

“Onde você está?”, pergunta.
“Em um bar chato, e você?”.
“Em casa. Podemos nos encontrar?”
“Agora?”

Eu seria péssimo com meus amigos se fosse? Eu estaria a me enganar se fosse? Você pode só estar com o vazio corroendo nesse momento, e precisando de uma alma para te preencher. E pela manhã seguinte me ofereceria um café preto e um selinho na minha despedida. É assim que você se doa. Muito por uma noite, mas nada por uma vida. Eu quero mesmo me iludir? Eu poderia somente viver esse momento, sem esperar nada, não é? Eu não seria uma opção fácil da madrugada se quisesse muito te ver e também te usar.

Despeço-me de todos, sem muito falar. Sei que ficarão preocupados, mas deveriam se preocupar ainda mais com minha eminente depressão naquele sofá no qual passaria o resto da noite. Saio, e encaro a madrugada fria, sem estar agasalhado o suficiente para isso. Corro com medo dos perigos que a escuridão pode trazer, que as ruas pouco movimentadas escondem. Você não está muito longe, mas sinto um aperto tão grande agora em meu coração, como se eu estivesse correndo para o nada, o vazio. As luzes da cidade tremem, minha respiração ofega, e finalmente chego.

Você está no portão, com sua camisa de flanela verde que diz te aquecer muito bem. Sorrio, ainda ofegante. Me dá um beijo, que eu não esperava. Geralmente você só me beija às escondidas, nos cantinhos, nos nossos momentos particulares. Me convida pra entrar e oferece um cigarro. Vamos pra janela do segundo andar, e fumamos conversando sobre política, sempre ela, política. Você parece bem, talvez só estivesse com saudade, ou sabe esconder seus sentimentos. Seus beijos não demonstram dor, e me sinto ótimo e pleno com você. Pode até ser que esteja me usando, que não me queiras no seu dia-dia, mas ali comigo, eu sinto sua alma. E valeu enfrentar a noite fria, as ruas escuras, tudo, por estar com você. E pela manhã tomarei o café preto e te beijarei em despedida em frente ao portão, e seguirei em frente. Esperando que se lembre assim de mim quando eu preciso ser resgatado e, que possamos ter mesmo que pequena e insignificante, a nossa história. 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Meu exagero

Às vezes acho que a culpa de grande parte dos meus problemas é a minha preguiça, que me impede de procurar um terapeuta. Eu preciso tratar a minha instabilidade, a minha dramatização de tudo. Porque sim, admito que sou o exagero em pessoa. Acredito que minha vida é um drama, mas não, ela não é. Eu não tenho tanta história pra contar. Eu não tenho tanta gente entrando e saindo assim da minha vida. Tem só minhas crises de vez em quando, ocasionadas por coisas insignificantes. Sempre fui assim. Foi desse jeito demasiado infeliz e em excesso que pensei no suicídio lá na adolescência, que de fato jamais teria coragem de fazer. Nem mesmo me cortar e ser um emo decente eu pude. Sempre tive medo do sangue e nunca quis realmente me ferir. Fui uma overdose de pessoa quando liguei, na quinta série, pra mãe do meu ex melhor amigo, tentando ser anônimo, e dizendo que ele havia me dado um soco no colégio.  Extrapolei ao chorar como se não houvesse amanhã, quando aquele garoto que eu poderia, e só poderia, ter me apaixonado, saiu com outro para um escurinho. Eu vivo intensamente as poucas coisas, porque parece que delas minha vida é feita. Então sim, choro por coisas que nem começaram. Sorrio por essas coisas também. Escrevo sobre meus sentimentos medíocres, egoístas e imaturos, já que nada melhor tenho pra escrever. Procuro e procuro por histórias avassaladoras, que me deixem no chão da cozinha, mas só consigo bons papos nela. Faço promessas a entidades que não tenho fé, em busca de algo que nem sei. E posso ser sim infantil, birrento, realista ou emotivo demais, dependendo da situação, contudo, ninguém pode negar que eu tenho esperança. Dramatizando minha vida, eu preparo o terreno pra uma vida que espero ter. Chorar por quem merece minhas lágrimas. Sorrir por quem realmente merece meus sorrisos. Correr sem direção a alguém que está de braços abertos pra mim. E por uma vez só, uma vez só é tudo o que eu peço, tornar todo esse drama, em coisa concreta, boa, simples e feliz.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Mágoas

     Eu sem você não sou nada, eu sem você sou apenas mais um vagando entre essa gente sem rumo. Sempre disseram que éramos partes que se completavam. Por mais que a teoria de que dois inteiros é que formam um relacionamento, sempre gostei de pensar que você era a minha outra parte nesse mundo. É o que diziam e é o que eu sentia. Quando conversávamos sobre aquele álbum novo de rep, quando fumamos juntos, quando saíamos por aí sem saber aonde chegaríamos. Eu tinha certeza que seríamos sempre isso. Mas há mágoas. Há coisas que a gente põe no armário, empurra com a barriga... E quando vê, tá tudo caindo sobre nossas cabeças. Existe um oceano inteiro entre nossos corações. Não nos identificamos mais. Não nos vemos mais no olhar do outro. E todos ficam chocados. Todos se sentem mal por errarem os palpites de que seria pra sempre. Se nós não damos certo, ninguém mais dará, é o que pensam. Parceiros perfeitos, amizade mútua. E a mágoa leva. A vida se encarrega de pegar, e deixar saudade, ou às vezes, só mesmo o vazio. E você tá ocupado demais com seu trabalho, sua cerveja barata, seu cigarro ruim. E eu continuo aqui, magoado, ferido. Os dois achando que o outro não foi o suficiente. Exigimos sempre tanto dos outros. Exigimos sempre tanto uma doação dos outros, mas esquecemos de nos doar. O mundo tá tão egoísta. O que será do futuro das relações? Uma família Jetson feita hoje poderia apostar num mundo de solidão. Ah, talvez seja a mágoa falando mais alto agora. Muito provavelmente ainda haja esperança no mundo, e apenas nós que somos fracos e individualistas. As pessoas ao nosso redor erraram o palpite pois não puderam prever que somos burros demais pra ouvir o outro. E todos os álbuns e drogas, e conversas triviais e aventuras juntos... Tá tudo entrando numa ida sem fim pra sessão nostalgia da nossa memória. E nossa vida? Ela continua. Rápida, vazia e magoada. 

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Rotina

    Você acorda e faz seu café, mesmo com a dor no estômago. A dor de ficar sem cafeína é pior. Pela manhã faz as coisas meio que motivado, por mais que se canse em vários momentos. É difícil não se entediar nesses tempos modernos. No almoço quer ir a algum restaurante bacaninha e fingir que está em Sex And The City. Mas tudo o que você tem é um pouco de carne no congelador e o arroz de ontem na sua casa. Pela tarde é necessário mais cafeína. O sono vem sem atenuante, sem modéstia ou receio. O que melhor você teria para fazer nessas lindas horas vespertinas, se não dormir? Mas você tem que ganhar o dinheiro pra comprar aquela calça nova, sair com aquele carinha do Tinder no sábado e finalmente pagar sua amiga. O fim de tarde chega, e em 50% dos dias você sente que realmente foi um dia produtivo, e nos outros 50% você acredita que não fez nada útil desde que acordou. Os dias têm lá suas exigências diferentes, e nem sempre você precisa se esforçar tanto. E então, vem a noite. Tem mais jantar pra fazer, e arroz e feijão, e mais carne pra descongelar. Tem louça. Mas também tem banho quente, e ah, como é bom banho quente! Tem a sua série do momento, mas tem também crise. Por que tudo isso? Você está realmente fazendo certo? E esse vazio? Você tá na profissão certa? Procurando amigos e pessoas pra se relacionar no lugar certo? Você vai ser feliz assim? E se tudo foi um engano? E se seu caminho não deveria ter sido esse? Não era pra você se sentir mais preenchido? O vazio é o mesmo, aquele que te consome quando não lhe resta ninguém. É impossível, porém dizer como é não senti-lo. A gente esquece que no dia seguinte tá lá fazendo café de novo, e que nem vai lembrar que chorou com saudade de casa na noite anterior. Que refletiu, refletiu e a conclusão nenhuma chegou sobre o rumo que está dando a sua vida. Até aonde vai chegar indo por esse caminho? Até onde você quer chegar? E quer chegar com esses seus pseudos talentos mesmo? Seu lado fraco fala, grita. Você duvida de si mesmo. É tão difícil sair da zona de conforto, é tão duro não saber ao certo pra onde está indo. É a falta de alguém? É a falta da identificação com algo? A felicidade é algo que você não sabe lidar muito bem, ela é inconstante para ti. Ela vai e vem sem piedade. Só resta o vazio. E tenta aprecia-lo, dizer que faz parte de si e que tem beleza na solidão. Talvez até tenha. Mas porque viemos para o mundo para tanta solidão? E vai ser sempre assim? Há tantas perguntas, há tantas dúvidas, há tanta saudade da mãe. Mas a única coisa que resta é sua cama agora. Sua cama e amanhã talvez, se tudo seguir no caminho, mais uma xícara de café e mais um dia possivelmente produtivo, possivelmente não.