- É claro que não é
obrigatório para elas, o que fariam aqui? Sairiam gritando por aí? Hahaha.
Os rapazes à volta
concordaram e eu, discretamente, revirei os olhos pro comentário machista. Não
disse nada, pois sabia que não obteria apoio de ninguém. Todos concordavam que
mulheres eram inferiores. A fila está enorme e dentro daquela sala escura de
uma estação de trem abandonada coisas terríveis deviam estar acontecendo.
Chega minha vez e sou
colocado numa meia cabine, separada das outras por panos verdes feios. Fico de
frente pra outros rapazes, em sua maioria também magrelos, e me pedem pra tirar
a roupa. Com timidez e agradecendo por não ter homens bonitos que poderiam me
excitar no momento, fico nu e sou obrigado a fazer alguns testes, como ficar na
ponta dos pés. Logo depois me encaminham pra um lugar onde devo levantar um
peso e me preocupo, sabendo que não consigo levantar quase nada. Com absoluta
convicção levanto o peso e estou certo: não consigo muito e minhas costas quase
se destroem. O capitão ou sei lá quem, negro e muito alto, com olhar mal
encarado ri de mim. Não com cumplicidade, de quem pode ter sido humilhado no
seu alistamento militar também, mas com um deboche e eu me sinto muito mal por
isso. Odeio o tom de superior das pessoas sobre mim, isso me enche de raiva.
Depois da humilhação
pública, felizmente na frente de pessoas que espero nunca mais ver, me dirijo a
algumas cadeiras e espero. Consigo ver algumas mesas com moços mal encarados do
exército e rapazes novinhos na frente sendo entrevistados. O que eu vou dizer?
Noto em uma das mesas mais distantes um rapaz claramente gay, com uma jaqueta claramente
de couro muito falsificado, com um cabelo claramente de chapinha conversando
com um membro do exército (membro, pois sei lá como identificar tenentes,
capitães, soldados, etc). Me dá um medo que esse menino franzino, desses que
poderiam ter sido zoados o ensino médio inteiro por ser “bichinha”, possa estar
sendo humilhado por seu jeito de ser ali naquele espaço.
Ele levanta-se da
cadeira e vai para uma sala menor na estação. Espero que tenha sido liberado.
Me chamam, e vou para uma dessas mesas.
O homem que me atende
com toda certeza era alguém grande dentro do exército. Talvez fosse seu olhar
penetrante, ou a boca fechada e reta, de quem não sorri há muito. Ele diz que
posso sentar e começamos a conversar. Pergunta da minha vida e se quero entrar
para o exército.
- Não quero senhor – eu
digo. Ele me pergunta o porquê, e eu respondo que vim para cidade apenas para
estudo, que tenho essa obrigação para com minha família, e que não seria
apropriado para mim. Seu olhar permanece imóvel e ele evidentemente nem se
abalou com minha declaração. Com um dos tons mais sérios e de deboche que já
ouvi na vida, superiores até ao da minha ridícula ex-professora de matemática,
ele diz:
- Só isso?
E meu chão desmorona. É
isso. Vou entrar para o exército, e cenas de mim acordando às 5 da manhã para
fazer exercícios, ou dando para 7 soldados ao mesmo tempo em um canto escuro do
batalhão passam pela minha cabeça. O que poderia chocá-lo e fazê-lo desistir de
mim?
- Não há nada mais que
te impeça de servir?
Há sim. Lembro-me do
menino franzino e de jaqueta falsificada de couro. Há algo em comum entre nós e
quem sabe a sala que ele entrou é a sala de dispensa... Com medo, de que se
contasse ele poderia destruir minha vida, ou se contasse, ele poderia realmente
me dispensar, sem segurança nenhuma digo para ele que sou gay.
Sua reação muda
levemente, mas ele me diz que ser gay não é motivo para não servir, que ele
estaria sendo preconceituoso se me dispensasse por isso. Seu tom é de
presunção, ele se revira na cadeira em gozo pela situação. Acho que está se
divertindo.
Eu, na arte da persuasão
que nem sabia que eu tinha, continuo:
- Seria preconceito se
eu quisesse, e o senhor me dispensasse por isso. Mas eu não quero. A minha vida
toda eu me identifiquei mais com meninas, eu nunca me dei bem com garotos. Eu
não me imagino servindo, isso não é pra mim.
Eu imploro, meus olhos
transmitem todo o medo. Nós garotos, quando chegamos a certa idade, somos
aterrorizados com a perspectiva de servir ao exército. É tratado por familiares
e pessoas próximas como a coisa mais terrível que pode nos acontecer.
- Posso falar com meu
capitão sobre isso, e ver se ele te libera. Você quer isso?
Meu mundo para. Ele
seria gentil desse jeito? Ele faria isso por mim? E o capitão dele, faria? Ou
isso tudo é uma piada? Se ele for lá, isso poderia me foder, eles poderiam
destruir minha vida só pra ter uma piada pra contar no fim do dia. Deveria
confiar?
Mas não há alternativa,
eu preciso confiar no bom das pessoas, mesmo que no fundo eu seja só mais um
pessimista no mundo. Decido seguir em frente e peço que ele fale com seu
superior.
O homem levanta-se da
cadeira e consigo olhar de longe ele chegando em um homem ainda mais imponente que
ele. Se demora por alguns minutos e eu começo a morrer por dentro.
Ai meu Deus vou servir
ao exército, vou servir ao exército, vou servir ao exército. Minha vida acabou.
Vou me matar. É isso, pra que continuar? Isso não é pra mim. Como odeio o
Brasil, como odeio ser obrigado a fazer alguma coisa. Cadê a porra do livre arbítrio
ou dos direitos democráticos?
Ele volta pra mesa,
entrelaça os dedos e diz que estou liberado.
Estou liberado.
Fico confuso de início
e quando a ficha cai dou um sorriso e agradeço. Sem muito estardalhaço, claro,
apenas me levanto e vou para onde ele me indicou. No mesmo dia faço o juramento
a bandeira, e digo que em caso de guerra darei minha vida ao país. Bom, quando
tiver uma guerra eu me preocupo com isso. Noto que o menino de mais cedo não
está junto e me pergunto se ele foi pra próxima fase. Pobre coitado.
Depois do fim do
juramento pego minhas coisas e saio da estação. Em alguns meses pego o meu
certificado de reservista e posso contar que nunca mais voltarei aqui, com exceção
de guerras é claro. O alívio toma conta de mim e certo agradecimento por ter
tido coragem de assumir quem eu sou e o que quero, ou não.