segunda-feira, 1 de junho de 2015

Anônimos

Era tarde da noite, e ele estava em sua janela fumando e pensando. Encarava o céu como se buscando alguma explicação nas estrelas. O segundo lia teorias de Freud sentado na cama, sem muito se preocupar.

O primeiro fala:            
- Acho que devemos dar um tempo.
- Um tempo?
- Sim, um tempo.
- Você sabe o que “tempos” significam né?
- O que?

Pausa

O primeiro se lembra de como o conheceu. Estava atrasado para o encontro com os amigos em um bar. Ao chegar, foi apresentado a esse amigo de sua amiga, calouro de Psicologia. Foram fumar algumas vezes, mesmo que o segundo não fumasse frequentemente, e se deram muito bem, teorizando sobre tudo que era possível, o último álbum daquela cantora pop, a economia do país, a situação da Ucrânia, sexo. Seus amigos em comum deixaram que um futuro psicólogo, e um futuro publicitário, o primeiro perfeccionista, que acredita saber de tudo e chato, e o segundo, perfeccionista, que acredita saber de tudo e ainda mais chato se entendessem e se conhecessem melhor.  Saíram mais algumas vezes, e viram que combinavam. Publicitários são charmosos também, e psicólogos são por iguais encantadores. Não demorou muito e se apaixonaram.
De volta à janela, o céu não lhe dava respostas. O que queria afinal? Estava finalmente com alguém que o preenchia. Não sentia mais medo da carência. Sentia-se completo, mas, e aí? O que viria a seguir? Tempo.

- Me desculpe.
O segundo para com os textos.
- Pelo quê?
- Por pedir tempo.
- Você não tem que se desculpar.
- Estou perdido.
- Todos estamos.

Lembrou-se do dia que juntos, nadaram nus na piscina de uma festa. Assim mesmo, sem pudor. Tinham-se beijado apenas uma vez, e ainda existia aquele frio na barriga que o começo de algo proporciona. Sem pestanejar, pularam e, lá na água, na frente de todos, beijaram-se pela segunda vez e souberam imediatamente que estavam apaixonados.
Como poderia ele então, querer um tempo?
O quarto era silencioso, apenas ouvia-se as folhas do xerox sendo viradas, carros distantes e o barulho do cigarro sendo tragado, porém não doía, não era torturante. O silêncio deles era paz, era conforto.

O primeiro, ainda tentando se desculpar diz:
- Desculpe-me, acho que errei com você.

Eles não se olham nos olhos, continuam com suas atenções para seus respectivos interesses. É uma conversa trivial, dessas de cozinha, de antes de dormir, tomando chá. O primeiro sentia-se perdido. Confundira-se todo. Acreditou mesmo que felicidade ou qualquer noção do que ele faz com a vida dependia de ter alguém a seu lado. Não. Aparentemente, é bom e reconfortante ter alguém, mas suas dúvidas... Elas estarão sempre presentes.
O segundo sabia disso, sabia que não podia transformar seu amor numa ilha de segurança. Que isso só dependia dele. Psicólogos e sua sensatez.


O universo, Deus ou talvez o cosmo deixaram um futuro publicitário e um futuro psicólogo se apaixonarem. Não os punia, mas os marcava pelo drama, pela intensidade. O primeiro termina o cigarro. Sabe que não precisa se desculpar mais. Vai para cama e tira os papéis da mão do segundo. Beijam-se, e ali, naquela meia luz, naquele apartamento anônimo da cidade, fazem amor. 

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