Era
tarde da noite, e ele estava em sua janela fumando e pensando. Encarava o céu
como se buscando alguma explicação nas estrelas. O segundo lia teorias de Freud
sentado na cama, sem muito se preocupar.
O primeiro fala:
-
Acho que devemos dar um tempo.
-
Um tempo?
-
Sim, um tempo.
-
Você sabe o que “tempos” significam né?
-
O que?
Pausa
O
primeiro se lembra de como o conheceu. Estava atrasado para o encontro com os
amigos em um bar. Ao chegar, foi apresentado a esse amigo de sua amiga, calouro
de Psicologia. Foram fumar algumas vezes, mesmo que o segundo não fumasse
frequentemente, e se deram muito bem, teorizando sobre tudo que era possível, o
último álbum daquela cantora pop, a economia do país, a situação da Ucrânia,
sexo. Seus amigos em comum deixaram que um futuro psicólogo, e um futuro
publicitário, o primeiro perfeccionista, que acredita saber de tudo e chato, e
o segundo, perfeccionista, que acredita saber de tudo e ainda mais chato se
entendessem e se conhecessem melhor. Saíram
mais algumas vezes, e viram que combinavam. Publicitários são charmosos também,
e psicólogos são por iguais encantadores. Não demorou muito e se apaixonaram.
De
volta à janela, o céu não lhe dava respostas. O que queria afinal? Estava
finalmente com alguém que o preenchia. Não sentia mais medo da carência.
Sentia-se completo, mas, e aí? O que viria a seguir? Tempo.
-
Me desculpe.
O
segundo para com os textos.
-
Pelo quê?
-
Por pedir tempo.
-
Você não tem que se desculpar.
-
Estou perdido.
-
Todos estamos.
Lembrou-se
do dia que juntos, nadaram nus na piscina de uma festa. Assim mesmo, sem pudor.
Tinham-se beijado apenas uma vez, e ainda existia aquele frio na barriga que o
começo de algo proporciona. Sem pestanejar, pularam e, lá na água, na frente de
todos, beijaram-se pela segunda vez e souberam imediatamente que estavam
apaixonados.
Como
poderia ele então, querer um tempo?
O
quarto era silencioso, apenas ouvia-se as folhas do xerox sendo viradas, carros
distantes e o barulho do cigarro sendo tragado, porém não doía, não era
torturante. O silêncio deles era paz, era conforto.
O
primeiro, ainda tentando se desculpar diz:
-
Desculpe-me, acho que errei com você.
Eles
não se olham nos olhos, continuam com suas atenções para seus respectivos interesses.
É uma conversa trivial, dessas de cozinha, de antes de dormir, tomando chá. O
primeiro sentia-se perdido. Confundira-se todo. Acreditou mesmo que felicidade
ou qualquer noção do que ele faz com a vida dependia de ter alguém a seu lado.
Não. Aparentemente, é bom e reconfortante ter alguém, mas suas dúvidas... Elas
estarão sempre presentes.
O
segundo sabia disso, sabia que não podia transformar seu amor numa ilha de
segurança. Que isso só dependia dele. Psicólogos e sua sensatez.
O
universo, Deus ou talvez o cosmo deixaram um futuro publicitário e um futuro
psicólogo se apaixonarem. Não os punia, mas os marcava pelo drama, pela
intensidade. O primeiro termina o cigarro. Sabe que não precisa se desculpar
mais. Vai para cama e tira os papéis da mão do segundo. Beijam-se, e ali,
naquela meia luz, naquele apartamento anônimo da cidade, fazem amor.
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