quinta-feira, 14 de julho de 2016

Quando o passado bate a porta

Em todos os momentos da história as pessoas precisaram seguir em frente e deixar o passado pra trás. Imagino que foi uma decisão difícil de nossos antepassados quando decidiram parar de andar por aí e se fixar em um lugar para fazer essa coisa nova chamada cultivar. Imagino também que não deve ter sido fácil para Maria Antonieta deixar sua família em um frio palácio de Viena para se juntar a uma elite grosseira, que a via com maus olhos, como eram os nobres franceses. Pergunto-me, se ela, Maria Antonieta, em algum momento jogou em algum córrego aos arredores do palácio de Versalhes alguma caixinha, com cartinhas de amor e retratos a óleo de seu amado com dor no coração de lembrar-se daquela realidade tão distante. Ou se, por odiar tanto a França e amar tanto seu país, manteve para sempre uma série de lembranças materiais de lá.

Pra mim, isso não importa, eu só vejo como deve ter sido difícil essa transição. Sempre é. Agora, o que quero dizer com tudo isso é que nós também temos decisões difíceis para fazer. Temos nossas próprias caixinhas de lembranças no fundo do guarda roupa, ou com as infinitas possibilidades da modernidade, uma pastinha no Google Drive.

Dias desses foi minha vez, revirando pastas online, de encontrar com o passado. Em uma pasta despretensiosa chamada “minhas fotos”, encontrei outra chamada “prints”. E só Deus pra me julgar pelo conteúdo dessa pasta. Tinha de tudo lá. Mas principalmente, prints românticos com alguém que eu já enterrei em minha vida, ou pelo menos clamo por ter enterrado. Não tenho mais certeza, pois foi gostoso rever conversas trocadas há quatro anos, que eu ainda me lembro profundamente. Foi doloroso ver que todas as certezas que eu tive um dia não sobreviveram a pouquíssimos anos. Aquela pessoa ali, não sou mais eu. Por mais que eu queira imensamente viver alguns dos bons sentimentos que já vivi, isso não é possível, não com os braços abertos ao passado.  Meu lado racional grita isso, porque sabe que é a verdade.

Mas nem só de racionalidade vive o ser humano. Somos feitos de sentimentos, dores, amores e dissabores. E quando você lembra-se de um momento de seu passado, um momento legitimamente bom e repleto, e vê seu estado de penúria atual, é difícil acreditar que dias melhores virão.

Pro final dessa crônica, só posso terminar dizendo que está tudo ruim sim, para todos nós. Como estar bem num país machucado como esse? Já começa por aí. Mas dias melhores, ah, dias melhores me forço acreditar que virão. Eu só posso acreditar nisso agora. Quanto à pasta problemática, apaguei. De sabores de felicidade do passado quero me deleitar em memórias, apenas, e de vez em quando. O pontapé pra viver coisas novas e gratificantes de novo tem que partir da gente mesmo. E estou decidido a fazer isso.