domingo, 31 de maio de 2015

Meu dia

     Acordei hoje sozinho, num dia chuvoso e com várias coisas pra fazer. Podia ser mais um domingo daqueles que me torturo por estar só, que minha mente borbulha pedindo para que eu veja gente, que eu me ocupe não com livros ou música, mas com companhia. Mas decidi que hoje seria diferente. Eu não preciso sempre estar com alguém para estar em paz. Decidi me dar minha própria paz. Sei bem que sou inconstante, e tudo que escrever agora pode ser diferente amanhã, mas hoje decidi dar um tempo pra mim. A chuva está lá fora, caindo aos pouquinhos limpando as ruas sujas da cidade e estou aqui dentro, limpando tudo de ruim que estava preso. Estou em um tempo tão bom, sabendo o rumo da minha vida e isso é tão bom. Tenho planos, tenho sonhos e eles não parecem inúteis, vagos. Quero aproveitar esse tempo bom, antes que ele escorra por entre meus dedos e eu me sinta perdido. É tão maravilhoso saber o que está fazendo, tão incrível acender um cigarro e apenas sentir nostalgia, sentir paixão pelo mundo, e não tristeza ou solidão. Agora, a dualidade dos meus olhos, que enxergam tristeza e paixão pelo universo está descompensada, e apenas vejo paixão. Como disse, não sei até quando irá durar, mas resolvi aproveitar.

       Coloquei aquele novo álbum daquela cantora de mpb, que nem sou ligado, mas por alguma razão começou a me tocar. Vou acender meu cigarro na janela e passar o dia assim. Até disposição para com a faxina eu tô! Tem ainda aquele livro do Caio Fernando Abreu, que vou devorar com certeza, e que me traz tanta emoção! Vou estudar para as minhas provas, vou ler meus livros atrasados e ouvir quantos álbuns de mpb forem possíveis. Tudo isso comigo mesmo. O dia não será sufocante, pois decidi e fiz um contrato comigo mesmo. A vida pode ser tão calma quando você decide fazer as pazes com a solidão, com o seu deus. Eu resolvi fazer, e espero um dia onde a minha felicidade só depende de mim. 

sábado, 30 de maio de 2015

A palavra Adeus

O texto abaixo escrevi há meses pra ti. Pensava que tínhamos chegado ao fim, mas estava enganado. Superamos e seguimos em frente essa crise, mas coisas inevitáveis sempre voltam. Eu já sabia que sim, um dia teria que dizer adeus. E a cada briga, a cada desentendimento, ficávamos mais distantes. Não nos reconhecíamos, e ao pensar nisso me doía. Não queria e ainda não quero que nos tornemos estranhos. Nem tudo é fácil, porém.
Escrevi esse texto quando não me imaginava sem você. Hoje, isso já é uma realidade. Ainda é dor, ainda é vazio, contudo sei que posso viver sem qualquer pessoa. É, acima de tudo, nostalgia. Escrevo agora ouvindo nossa música, com saudades, e desejando pra você todas as coisas que sempre quis. Me desculpe por tudo. Me desculpe por não tentar tanto. Agora, somos pessoas diferentes, e você será inesquecível. Mas, finalmente posso dizer, mesmo sem outro alguém, mesmo com insegurança, que virei a página.

Adeus.

Pra você, de meses atrás, mas nunca menos eterno:
“Eu sempre tive medo da palavra adeus. Sempre tive medo de como ela podia me trazer angústia e vazio. Eu tenho mais medo dela agora, quando sei que sua chegada é inevitável.
Por muito tempo achei que para sempre existia mesmo. Pobre de mim. Até a mais forte das amizades, o mais complexo dos laços, pode simplesmente ir. E eu já sabia disso. Sabia pela formação de nós dois. Nós crescemos juntos, passamos por muita coisa juntos. Eu te conheço incrivelmente bem, e você conhece uma parte de mim que escondo de todos. Você talvez seja a pessoa que mais me conhece no mundo todo. Mas agora eu tenho que te dizer adeus, e o pior é que sempre soube que esse dia chegaria. Talvez tenhamos mesmo, sido feitos um pro outro, talvez eu nunca encontre ninguém tão perfeito quanto você, mas estou orando agora para que isso não seja verdade, para que os tantos anos que ainda me restam sejam repletos de amor. Mesmo que não seja o seu.
Eu sempre soube que terminaríamos com um adeus. Só não imaginei quando seria. Eu sempre soube que você um dia seria vazio. Eu só não podia imaginar que antes mesmo do adeus você já seria.
Você leva embora contigo uma parte só sua. Uma parte que nem mesmo você saiba, talvez. Eu me pergunto agora com quem conversarei. Com quem mostrarei meu lado vulnerável. Quando o vazio me incomodava era a você que eu recorria. Quando eu não me amava era você que me amava. Quando eu não me queria, você estava lá para me ouvir. Mas agora eu tenho que te dizer adeus, pois já faz algum tempo que não nos completamos dessa forma. E se já saímos de momentos ruins, esse parece o nosso grande poço final. Eu te amo. Eu sei que é amor. A sua ausência já é dor e eu nunca senti isso antes. Mas agora é adeus. Sempre soube que seria.

Me rastejo agora num emaranhado de solidão. Num emaranhado que um dia você cuidava. Vago agora em mim mesmo. Não me reconheço, nem sei pra onde vou. Eu só sei que você agora não está do meu lado, e isso me consome. Eu só sei que agora você finalmente virou vazio. E por mais que eu soubesse que aconteceria, eu jamais imaginaria que doeria tanto.”

sábado, 2 de maio de 2015

Madrugada

Estavam todos no bar, dançando e bebendo, acreditando que eu estava ali naquele momento com eles. Beijavam-se e gastavam rios em seus cartões platinium. Eu bebia pouco, fumava muito, e por mais que gostasse de dançar, com aquela música ruim e naquele momento, só pensava em dormir. Nem era cansaço não, era falta de vontade de estar ali. Não me levem a mal. Amo meus amigos, mas sou instável e mimado e me emburro fácil, me canso fácil, me irrito fácil e me entristeço fácil. Sento em um banco e sei que dali não irei mais sair. É o meu momento da festa, onde só espero que todos também se cansem e possamos ir embora. É claro, era apenas uma da manhã, e eu provavelmente ficaria moribundo ali por algumas horas. 

Meu celular, que felizmente trouxe imaginando que precisaria me distrair com ele em algum momento, toca. Perco a chamada mas há uma mensagem sua no whatsapp. Me procura. Eu respondo, talvez você ainda possa me render algumas risadas nessa noite mesmo que eu já esteja sem expectativas sobre nós.

“Onde você está?”, pergunta.
“Em um bar chato, e você?”.
“Em casa. Podemos nos encontrar?”
“Agora?”

Eu seria péssimo com meus amigos se fosse? Eu estaria a me enganar se fosse? Você pode só estar com o vazio corroendo nesse momento, e precisando de uma alma para te preencher. E pela manhã seguinte me ofereceria um café preto e um selinho na minha despedida. É assim que você se doa. Muito por uma noite, mas nada por uma vida. Eu quero mesmo me iludir? Eu poderia somente viver esse momento, sem esperar nada, não é? Eu não seria uma opção fácil da madrugada se quisesse muito te ver e também te usar.

Despeço-me de todos, sem muito falar. Sei que ficarão preocupados, mas deveriam se preocupar ainda mais com minha eminente depressão naquele sofá no qual passaria o resto da noite. Saio, e encaro a madrugada fria, sem estar agasalhado o suficiente para isso. Corro com medo dos perigos que a escuridão pode trazer, que as ruas pouco movimentadas escondem. Você não está muito longe, mas sinto um aperto tão grande agora em meu coração, como se eu estivesse correndo para o nada, o vazio. As luzes da cidade tremem, minha respiração ofega, e finalmente chego.

Você está no portão, com sua camisa de flanela verde que diz te aquecer muito bem. Sorrio, ainda ofegante. Me dá um beijo, que eu não esperava. Geralmente você só me beija às escondidas, nos cantinhos, nos nossos momentos particulares. Me convida pra entrar e oferece um cigarro. Vamos pra janela do segundo andar, e fumamos conversando sobre política, sempre ela, política. Você parece bem, talvez só estivesse com saudade, ou sabe esconder seus sentimentos. Seus beijos não demonstram dor, e me sinto ótimo e pleno com você. Pode até ser que esteja me usando, que não me queiras no seu dia-dia, mas ali comigo, eu sinto sua alma. E valeu enfrentar a noite fria, as ruas escuras, tudo, por estar com você. E pela manhã tomarei o café preto e te beijarei em despedida em frente ao portão, e seguirei em frente. Esperando que se lembre assim de mim quando eu preciso ser resgatado e, que possamos ter mesmo que pequena e insignificante, a nossa história.