domingo, 29 de junho de 2014

Bolha

   Na minha primeira aula na faculdade no curso de publicidade, diga-se de passagem, tive contato com meu professor de criação. Já nesse dia ele discursou sobre nossa bolha. E de como era necessário expandi-la para ser um publicitário e principalmente um criativo. Ele contou sobre a importância de ter contato com as mais variadas coisas, de visitar, conhecer e experimentar o que de imediato não nos atrai, mas é fundamental conhecer. Assim, poderíamos ser criativos melhores, e buscaríamos referências nas mais diversas peculiaridades do mundo. Enchi meus olhos já no primeiro dia. Quis sair imediatamente e conhecer museus, feiras livres, concertos de óperas e bailes funk também. Tive uma necessidade súbita de ouvir música clássica e MPB, conhecer a cultura francesa e também a indiana e entender um pouco mais de história. Com isso poderia bater no peito e dizer “sou a porra de um publicitário”, ou pelo menos “estou no caminho certo para ser a porra de um publicitário”.
    Um tempo depois me perguntei como conhecer coisas boas. Percebi também como sou uma merda de pessoa. Como minha biblioteca de músicas é limitada, como li poucos clássicos da literatura e como vi poucos filmes de Truffaut e Woody Allen. Fui para o chão. Minha bolha era minúscula e desesperadamente me perguntava: como aumenta-la? Ir a museus sozinho? Estudar história da arte sozinho? Pesquisar por Caetano Veloso no Google? De repente imaginei que pessoas é que mudavam nossos hábitos e gostos. Que pessoas novas que entravam na nossa vida é que nos apresentavam a algo bom e que nem imaginávamos existir. Assim como alguns amigos me apresentaram o rock alternativo há uns anos atrás. Assim como uma amiga me ensinou o valor de um bom filme europeu. Assim como outra amiga me mostrou como era profundo um rap. Isso não me ajudou. Pois me deparava com um dilema: pessoas não surgem quando queremos. E se precisava delas para crescer teria que esperar, teria que esperar?
   Ainda estou nessa. Tentando descobrir coisas novas e lendo um livro cá e outro acolá. Na própria faculdade conheci alguns artistas bacanas, entendi um pouco mais da sociedade e acredito que estou num caminho bem legal. Pessoas? Ainda não apareceram. Os novos amigos da faculdade estão na mesma que eu e são inclusive muito parecidos, não me acrescentando muita coisa. Não quero ficar dependente de gente que nem sei se existe ou se vai aparecer, mas estou aberto a elas. Não tenho medo de mudar de gosto e de opinião e tudo o que eu mais quero é uma bolha enorme, cheia de pluralidade e o menos limitada possível. 

terça-feira, 24 de junho de 2014

Primeiro semestre

  Resolvi escrever depois de muito tempo. Talvez o final do semestre e todo o estresse acumulado que me causou doenças tenham me motivado a isso. Talvez o livro daquela autora de mulherzinha tenha me levado a isso. Não sei. Só sei que estou eu aqui, nesse momento de transição, entre um nada e outra coisa que não é nada, perdido. Preocupado se esse texto está justificado e se minha conta bancária tá no positivo.
   Hoje não fui para a faculdade, nem preciso mais inclusive. Esse ano, apenas para constar, comecei uma faculdade. Serei um publicitário, um pseudo publicitário no momento. E não é nada fácil viu? Temos que entender de Freud e Marx, somos estimulados a ter papos cult durante o intervalo naquela praça de alimentação hiper capitalista da universidade. Só não somos estimulados a ser marxistas, o que não faz o menor sentido já que contribuiremos para o sistema. De qualquer maneira, todos lá querem isso, querem depender de café para viver, ter papos Cult em bistrôs na sexta feira à noite. Claro, aqueles que realmente querem ser publicitários; não estou contando aquelas meninas burras que perguntam página de livros no grupo do Facebook sem se preocupar com o sumário, ou aqueles caras bombados de pau pequeno que querem comer as meninas burras (que só querem dar para os mesmos caras bombados de pau pequeno mas veteranos).
   Deu para perceber que acabei o primeiro semestre e já tenho vários problemas com minha universidade. É inevitável, estudei muito para uma pública, queria acima de tudo ser um gay, esquerdista, maconheiro, militante e caótico de uma universidade pública. Contudo, acabei um pseudo alternativo, estranho, esquerdista, não tão maconheiro assim numa privada. Mas não é de todo mal, achei o meu lugar e amo lá; por mais que minha simples bolsa estímulo sempre atrase e não possa assumir muitas prestações justamente por isso.
   “Achar o seu lugar”. Creio que é isso que todos buscam e eu até encontro com certa facilidade, porém inevitavelmente com meu estranho incômodo e mal de sempre achar que estou perdendo pessoas, que ali do meu lado, numa sala do terceiro ano de jornalismo está a possível pessoa mais legal do mundo pra mim e que simplesmente nunca conversaremos. Como proceder? Tenho aqui, meus amigos também futuros publicitários, com muita grana e sem tantas preocupações, que passarão as férias de julho em Los Angeles e que querem imprimir os trabalhos em papel Couche. Voucher. Cuchê. Sei lá.
   Cá estou eu, nesse lugar meio relativo ao mundo, onde tem muita gente diferente; afinal uma universidade. A coisa mais irada do ano, talvez da minha vida. Sem dúvida não estaria falando tanto dela se não fosse. Todavia, mesmo aqui, nessa nova cidade, nesse quarto que não é mais tão meu, nessa minha pindaíba universitária (meu Deus a palavra pindaíba existe mesmo), eu tenho aqueles meus vazios habituais, que se tornaram quase rotineiros. Ora, numa cidade grande, fria e vazia, sem tantos amigos e ninguém no bairro ao lado para correr e chorar no colo, como não ter um aumento considerável no seu vazio e solidão? E possivelmente a minha atual falta de vontade de conhecer pessoas, que sempre me decepcionam, seja porque tem um papo muito chato, seja porque usam sapatênis, ou no caso dos possíveis pretendentes, só querem me comer, torna tudo mais difícil. Começo um papinho acolá e já me desinteresso, e quando rola... Ah, quando rola assisto um filme do Woody Allen com o sujeito, nos beijamos na cozinha e transamos. Ponto. Ele fica online no Whatsapp e não me chama. Eu mando oi. Nada. E daí? Bem, penso, repenso, reflito sobre meu beijo, sobre minha maneira de chupar, sobre meus dedos e sobre meu cu. Ou, quando nem o filme do Woody Allen acontece, chupo alguém qualquer, que quer por um cavalo inteiro dentro de mim no carro e que não quer sujar o mesmo, usando toalhinhas. Olha bem pra minha cara e veja se eu uso toalhas no sexo oral.
   Pronto, já falei que chupei duzentas pessoas nessa minha nova vida e que faço reflexões a cada pau que chupo. Já disse que sou meio louco e penso demais e que no fundo gostaria de ser um menino rico, bombado, de pau pequeno com um carrão, ou uma menina rica, burra, loira, com um iphone e que dá para os veteranos e se possível troca uns minutos da vagina por um trabalho do primeiro ano. Não é mais fácil? Pegar um livro da Marilena Chauí e nada mudar. Não levar tapas na cara quando Freud começa a cutucar Ana O. Nem ficar em transe enquanto a professora USPiana de sociologia, com certeza maconheira, fala de como o MCDonald’s explora seus funcionários. Levar tudo numa boa, indo no entorta bixo ou numa dessas festas de uns caras bêbados, de drinks ruins e cerveja ruim.
   Bom, não sou assim. Tô numa universidade privada, só com uns trocados no bolso, vivendo de baratíssimo do Subway e olhe lá. Feinho, com roupinhas meia boca e um tênis lindo novo dividido em 5 vezes na C&A. Ah, agradeço essas pequenas coisas, e por mais que não tenha muita grana nem muitos amores espero aqui, quietinho comendo croissant de chocolate, a minha vez de ser um publicitário bem sucedido.
   Sobre os caras, seus paus, meus amores e minhas reflexões não há muito que fazer. Talvez fique ai a vida toda, chupando e chorando. Pensando no que fiz errado ou não fiz. Talvez eu sempre faça isso, vá pra balada, fique mega perdido, sem dinheiro pra ficar bêbado e dançar muito e incomodado com minhas roupas. Talvez aquele menino, da mesma faculdade que eu, e mesmo curso, se interesse por mim sempre, me ache fofinho, engraçado até. Me beije, me beije bem mas seja tão carente que me expele logo de cara. Não sei. Sou tão vazio no peito e tão carente, mas simplesmente detesto isso em qualquer um que não seja eu. Problemas. Sim, eu tenho. E nem sei mais do que tô falando. Não quero ser um vazio que entrega o jogo fácil. Não quero que me fodam e não respondam no dia seguinte. Mas eu meio que busco isso e fujo de gente legal. Pego o carinha bonitinho da faculdade e quando o vejo pelos corredores entro em uma sala qualquer para fugir. Porque gente legal me assusta?
   Saudades das pequenas preocupações, vontade de passar logo por tudo isso e realizar meu sonho de morar num apartamento pequeno, com dois gatos, livros e um monte de réplica de uns quadros legais que conheci na faculdade, já que publicitários devem entender de arte e dediquei grande parte do meu tempo para entender tal. Cozinhar macarrão, trabalhar nos meus Jobs, ler jornal e discutir politica no bar com uns amigos, mas claro, também falar do pau do carinha da noite passada. Só não sou mais vazio porque tenho sonhos que me motivam, e sabe de uma coisa? Sempre os terei.
   Não sei concluir o que acabo de escrever, não sei se tem conclusão. É a minha vida. Meu primeiro semestre de um momento da minha vida com gosto diferente. Um gosto que espero mudar sempre. Bleh.