Eu
sempre me perguntei se eu já havia sofrido homofobia. Porque de fato
nunca apanhei na rua por ser gay, ou perdi um emprego por ser gay, ou fui
expulso de casa, ou até mesmo agredido verbalmente por pessoas ao meu redor. Tá
certo que já ouvi aqueles “VIADO”, de covardes desconhecidos, protegidos por
seus carros, e claro que pessoas já devem ter evitado algum contato comigo por
isso. Mas nada nunca me atingiu de maneira que me deixasse realmente triste,
magoado ou ferido. Porém, ainda tentando lembrar de algo me veio uma memória.
Como poderia esquecer? Foi de alguma maneira minha primeira decepção em
relacionamentos, em amizade. Eu estava com meu melhor amigo em uma praça, nós
fazíamos natação juntos e estávamos perto de uma banca de revistas, onde ele comprava
sempre sua revista Recreio. Ele me dizia que não poderíamos mais ser amigos.
Não podia mais porque os meninos me achavam “bixa”, me elegeram o “veadinho” da
turma. E eu nem entendi. Eu só não gostava de futebol, eu só não me interessava
pela revista de lingerie da Avon. Eu apenas passava os intervalos fazendo
contas de matemática, mesmo que desde essa época eu já demonstrasse certa
indisposição para a matéria, porque não gostava de brincar nem com as meninas,
nem com os meninos.
E
então ele estava ali, dizendo que nossa amizade desde o pré teria que acabar,
pois pegava mal ser visto comigo. Eu me lembro da cena, lembro-me dos motivos,
mas lembro também que me perguntava se eu era aquilo ali mesmo. E o que seria
aquilo. Eu era “bixa”? Eu era “veado”? E porque isso era errado? Deveria ser
excluído e oprimido? Anos mais tarde, mais precisamente nos últimos meses eu
finalmente entendi que eu não tinha problema algum. O problema não era meu, e
nem do meu ex melhor amigo, ele coitado, só reproduziu o que existe por ai. É
feio ser “veado”, é feio “desmunhecar”, é feio não “comer buceta” e sair
espalhando isso por aí. Quando ele terminou comigo, todo o ciclo da sociedade
homofobica estava completo. Ali uma criança, que não nasceu para odiar nada,
estava corrompida.
Eu segui minha vida sem ele, sem aqueles garotos. Descobri o que
era ser gay, e que eu era isso ai que me chamavam algum tempo depois, e mais
algum tempo depois tive coragem de me olhar no espelho e dizer “eu sou gay”.
O processo de aceitação é a melhor coisa que existe.
E não há nada errado com isso.
O que me deixa triste é saber que “gay” ainda será um termo pejorativo.
Que nas escolas ele será aplicado com qualquer um que fuja um pouco do
padrão.
Eu sofri então, com a homofobia. Ali, na hora, me doeu como qualquer
perda. Como qualquer tapa de quem a gente ama. Mas hoje não mais, eu estou
cercado de gente que me aceita, que compreende quem eu sou... E se não
compreenderem também, é só seguir em frente. Porque quando se é gay, lésbica,
bi, ou trans* você não tem só a preocupação de ser legal para gostarem de você,
de ser simpático ou interessante. Você tem que preocupar também se sua
sexualidade, que é só sua, vai incomodar e impedir alguém de entrar na sua
vida. Mas se serve de conselho: se impede, você é que está ganhando ao ficar
longe disso.