sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Bicha de Nascimento

      Eu sempre me perguntei se eu já havia sofrido homofobia.  Porque de fato nunca apanhei na rua por ser gay, ou perdi um emprego por ser gay, ou fui expulso de casa, ou até mesmo agredido verbalmente por pessoas ao meu redor. Tá certo que já ouvi aqueles “VIADO”, de covardes desconhecidos, protegidos por seus carros, e claro que pessoas já devem ter evitado algum contato comigo por isso. Mas nada nunca me atingiu de maneira que me deixasse realmente triste, magoado ou ferido. Porém, ainda tentando lembrar de algo me veio uma memória. Como poderia esquecer? Foi de alguma maneira minha primeira decepção em relacionamentos, em amizade. Eu estava com meu melhor amigo em uma praça, nós fazíamos natação juntos e estávamos perto de uma banca de revistas, onde ele comprava sempre sua revista Recreio. Ele me dizia que não poderíamos mais ser amigos. Não podia mais porque os meninos me achavam “bixa”, me elegeram o “veadinho” da turma. E eu nem entendi. Eu só não gostava de futebol, eu só não me interessava pela revista de lingerie da Avon. Eu apenas passava os intervalos fazendo contas de matemática, mesmo que desde essa época eu já demonstrasse certa indisposição para a matéria, porque não gostava de brincar nem com as meninas, nem com os meninos.

         E então ele estava ali, dizendo que nossa amizade desde o pré teria que acabar, pois pegava mal ser visto comigo. Eu me lembro da cena, lembro-me dos motivos, mas lembro também que me perguntava se eu era aquilo ali mesmo. E o que seria aquilo. Eu era “bixa”? Eu era “veado”? E porque isso era errado? Deveria ser excluído e oprimido? Anos mais tarde, mais precisamente nos últimos meses eu finalmente entendi que eu não tinha problema algum. O problema não era meu, e nem do meu ex melhor amigo, ele coitado, só reproduziu o que existe por ai. É feio ser “veado”, é feio “desmunhecar”, é feio não “comer buceta” e sair espalhando isso por aí. Quando ele terminou comigo, todo o ciclo da sociedade homofobica estava completo. Ali uma criança, que não nasceu para odiar nada, estava corrompida.

        Eu segui minha vida sem ele, sem aqueles garotos. Descobri o que era ser gay, e que eu era isso ai que me chamavam algum tempo depois, e mais algum tempo depois tive coragem de me olhar no espelho e dizer “eu sou gay”.

        O processo de aceitação é a melhor coisa que existe.

        E não há nada errado com isso.

     O que me deixa triste é saber que “gay” ainda será um termo pejorativo. Que nas escolas ele será aplicado com qualquer um que fuja um pouco do padrão. 
      Eu sofri então, com a homofobia. Ali, na hora, me doeu como qualquer perda. Como qualquer tapa de quem a gente ama. Mas hoje não mais, eu estou cercado de gente que me aceita, que compreende quem eu sou... E se não compreenderem também, é só seguir em frente. Porque quando se é gay, lésbica, bi, ou trans* você não tem só a preocupação de ser legal para gostarem de você, de ser simpático ou interessante. Você tem que preocupar também se sua sexualidade, que é só sua, vai incomodar e impedir alguém de entrar na sua vida. Mas se serve de conselho: se impede, você é que está ganhando ao ficar longe disso

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Coisas Inevitáveis

    Há algumas coisas inevitáveis na nossa vida. Você pode fugir, mas não dá, porque é realmente inevitável. Não dá pra fugir da sua pele oleosa geneticamente herdada, não dá pra fugir da vontade de fofocar sobre a vida alheia, ou sua pré-disposição pra aceitar gozada na cara. Bom, acho que uma das coisas inevitáveis do meu ser, é ser justamente aquele que volta carregando o amigo bêbado no final da festa, ou em dias mais trágicos, ser a pessoa carregada pelo amigo no final da festa. Não sou do tipo que sai com um affair, com um casinho e que vai pra algum lugar super bacana transar. Não sou do tipo que sai com os sorrisos de ponta a ponta porque conquistou aquele cara que todos queriam. É a coisa inevitável na minha vida. Sou o porto seguro dos amigos, a pessoa que com certeza não vai deixar a escova ficar toda fodida de vômito. Tá certo, sou bacana, e quando não sou, me faço de bêbado perfeito, nem dou tanto trabalho assim, afinal, quase sempre apenas durmo. Mas essas teimosias que a vida insiste em mim acabam sendo parte de quem eu sou. Talvez um dia por fim, sua pele não seja mais oleosa, você pare de fofocar, e pare de querer receber gozada na cara. Talvez sua unha do pé que não cresce, cresça, talvez você arrume um namorado feliz, diferente de todos os outros depressivos que conseguiu. Eu não sei o que a vida quer, eu não sei por que fui escolhido pra ser o ombro amigo ou o bêbado da turma. As coisas foram meio que se formando assim, e nem Freud explicaria. Talvez eu volte com um sorriso estampado na cara, talvez eu volte com um affair. Mas por hora, de todas as coisas que me perseguem, é o sentimento vitimista e carente de ser que me matam. De que nada tá bom. De que tá faltando. De que a mídia é a culpada por estabelecer esse modelo monogâmico e romântico de ser. Quem sabe a culpa nem seja minha, e quem sabe eu pare de escrever de madrugada sobre nada, ouvindo “Dancing on my own”, hino dos amargurados, e vá ser feliz. Ou talvez eu já seja, e ser triste às vezes seja afinal meu lance inevitável. Tá ai, uma ótima questão futura.