domingo, 27 de setembro de 2015

Não há nada mais que te impeça?

- É claro que não é obrigatório para elas, o que fariam aqui? Sairiam gritando por aí? Hahaha.
Os rapazes à volta concordaram e eu, discretamente, revirei os olhos pro comentário machista. Não disse nada, pois sabia que não obteria apoio de ninguém. Todos concordavam que mulheres eram inferiores. A fila está enorme e dentro daquela sala escura de uma estação de trem abandonada coisas terríveis deviam estar acontecendo.

Chega minha vez e sou colocado numa meia cabine, separada das outras por panos verdes feios. Fico de frente pra outros rapazes, em sua maioria também magrelos, e me pedem pra tirar a roupa. Com timidez e agradecendo por não ter homens bonitos que poderiam me excitar no momento, fico nu e sou obrigado a fazer alguns testes, como ficar na ponta dos pés. Logo depois me encaminham pra um lugar onde devo levantar um peso e me preocupo, sabendo que não consigo levantar quase nada. Com absoluta convicção levanto o peso e estou certo: não consigo muito e minhas costas quase se destroem. O capitão ou sei lá quem, negro e muito alto, com olhar mal encarado ri de mim. Não com cumplicidade, de quem pode ter sido humilhado no seu alistamento militar também, mas com um deboche e eu me sinto muito mal por isso. Odeio o tom de superior das pessoas sobre mim, isso me enche de raiva.

Depois da humilhação pública, felizmente na frente de pessoas que espero nunca mais ver, me dirijo a algumas cadeiras e espero. Consigo ver algumas mesas com moços mal encarados do exército e rapazes novinhos na frente sendo entrevistados. O que eu vou dizer? Noto em uma das mesas mais distantes um rapaz claramente gay, com uma jaqueta claramente de couro muito falsificado, com um cabelo claramente de chapinha conversando com um membro do exército (membro, pois sei lá como identificar tenentes, capitães, soldados, etc). Me dá um medo que esse menino franzino, desses que poderiam ter sido zoados o ensino médio inteiro por ser “bichinha”, possa estar sendo humilhado por seu jeito de ser ali naquele espaço.

Ele levanta-se da cadeira e vai para uma sala menor na estação. Espero que tenha sido liberado. Me chamam, e vou para uma dessas mesas.

O homem que me atende com toda certeza era alguém grande dentro do exército. Talvez fosse seu olhar penetrante, ou a boca fechada e reta, de quem não sorri há muito. Ele diz que posso sentar e começamos a conversar. Pergunta da minha vida e se quero entrar para o exército.

- Não quero senhor – eu digo. Ele me pergunta o porquê, e eu respondo que vim para cidade apenas para estudo, que tenho essa obrigação para com minha família, e que não seria apropriado para mim. Seu olhar permanece imóvel e ele evidentemente nem se abalou com minha declaração. Com um dos tons mais sérios e de deboche que já ouvi na vida, superiores até ao da minha ridícula ex-professora de matemática, ele diz:

- Só isso?

E meu chão desmorona. É isso. Vou entrar para o exército, e cenas de mim acordando às 5 da manhã para fazer exercícios, ou dando para 7 soldados ao mesmo tempo em um canto escuro do batalhão passam pela minha cabeça. O que poderia chocá-lo e fazê-lo desistir de mim?

- Não há nada mais que te impeça de servir?

Há sim. Lembro-me do menino franzino e de jaqueta falsificada de couro. Há algo em comum entre nós e quem sabe a sala que ele entrou é a sala de dispensa... Com medo, de que se contasse ele poderia destruir minha vida, ou se contasse, ele poderia realmente me dispensar, sem segurança nenhuma digo para ele que sou gay.

Sua reação muda levemente, mas ele me diz que ser gay não é motivo para não servir, que ele estaria sendo preconceituoso se me dispensasse por isso. Seu tom é de presunção, ele se revira na cadeira em gozo pela situação. Acho que está se divertindo.

Eu, na arte da persuasão que nem sabia que eu tinha, continuo:
- Seria preconceito se eu quisesse, e o senhor me dispensasse por isso. Mas eu não quero. A minha vida toda eu me identifiquei mais com meninas, eu nunca me dei bem com garotos. Eu não me imagino servindo, isso não é pra mim.

Eu imploro, meus olhos transmitem todo o medo. Nós garotos, quando chegamos a certa idade, somos aterrorizados com a perspectiva de servir ao exército. É tratado por familiares e pessoas próximas como a coisa mais terrível que pode nos acontecer.

- Posso falar com meu capitão sobre isso, e ver se ele te libera. Você quer isso?

Meu mundo para. Ele seria gentil desse jeito? Ele faria isso por mim? E o capitão dele, faria? Ou isso tudo é uma piada? Se ele for lá, isso poderia me foder, eles poderiam destruir minha vida só pra ter uma piada pra contar no fim do dia. Deveria confiar?

Mas não há alternativa, eu preciso confiar no bom das pessoas, mesmo que no fundo eu seja só mais um pessimista no mundo. Decido seguir em frente e peço que ele fale com seu superior.

O homem levanta-se da cadeira e consigo olhar de longe ele chegando em um homem ainda mais imponente que ele. Se demora por alguns minutos e eu começo a morrer por dentro.
Ai meu Deus vou servir ao exército, vou servir ao exército, vou servir ao exército. Minha vida acabou. Vou me matar. É isso, pra que continuar? Isso não é pra mim. Como odeio o Brasil, como odeio ser obrigado a fazer alguma coisa. Cadê a porra do livre arbítrio ou dos direitos democráticos?
Ele volta pra mesa, entrelaça os dedos e diz que estou liberado.

Estou liberado.

Fico confuso de início e quando a ficha cai dou um sorriso e agradeço. Sem muito estardalhaço, claro, apenas me levanto e vou para onde ele me indicou. No mesmo dia faço o juramento a bandeira, e digo que em caso de guerra darei minha vida ao país. Bom, quando tiver uma guerra eu me preocupo com isso. Noto que o menino de mais cedo não está junto e me pergunto se ele foi pra próxima fase. Pobre coitado.

Depois do fim do juramento pego minhas coisas e saio da estação. Em alguns meses pego o meu certificado de reservista e posso contar que nunca mais voltarei aqui, com exceção de guerras é claro. O alívio toma conta de mim e certo agradecimento por ter tido coragem de assumir quem eu sou e o que quero, ou não. 

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

A escolha é sua

Às vezes as coisas soam como erradas, como coisas que não deveriam ser feitas, e eles nos avisam “olha vai dar merda isso aí”. E você finge que ouve, mas não acredita que coisas que soam como errados possam ser de fato erradas. Então você mete a cara, o pé e toda sua coragem  nessas coisas meio sem sentido, que todos dizem que é errada.

Um amor pode ser errado?
Uma escolha importante pra vida pode ser errada?
Não é tudo tão subjetivo?

A gente tem o costume de julgar o rumo da vida dos outros, mas o rumo da vida dos outros só diz respeito única e exclusivamente ao outro!
“Olha você tem que fazer uma faculdade...”, você não precisa se quiser.
“Bem, acho que você deveria ter filhos...”, isso não é uma verdade.
“Você não deveria continuar com ele, ele te faz mal”, pode até fazer, muito provavelmente faz e esse amor é horrível, mas só nos resta dar conselhos, não é?

Às vezes certas coisas soam como erradas, confundem-se entre desejo, ética e pé no chão, nesse mundo que de tão louco nos força a viver em estado de vontade.

Às vezes certas coisas parecem erradas, e são mesmo.  Mas até as coisas erradas podem nos dar algo, mesmo que exista muito sofrimento até o momento de sabedoria e discernimento do que foi aprendido. Se as pessoas te dizem “não faça isso ou aquilo”, e você acha que deve fazer, faça. A vida não é só contada com histórias onde todas as variantes estavam controladas e tudo era perfeitinho. Talvez você se ferre, mas talvez o que é um erro pra maioria das pessoas seja pra você um grande acerto. 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Os homens se vão

Ele me beijou e partiu.

Não disse quando voltaria, nem mesmo se voltaria. Partiu num domingo, fim de tarde. Sua silhueta esguia sumia no horizonte e me perguntava na frente do portão de casa se o veria novamente. Suas partidas eram sempre assim, com um beijo e um até logo que não saberíamos dizer até quando existiria. Ele partiu e deixou em mim a plenitude. Isso sempre foi o que mais amei nele, como não me consumia, não me sugava, pelo contrário, me trazia paz e calma. Mas voltaria? Deveria acreditar nesse amor? Amor. Uso palavras fortes quando sinto coisas que me tiram da zona de conforto.

O último sempre que partia me destruía. Sabia dos efeitos nocivos que ele podia me trazer e mesmo assim ia sem dizer adeus ou até logo. Eu o esperava sabendo que voltaria dizendo que me amava e que só eu o entendia. Mas não, eu não o entendia. Não conseguia compreender porque era necessário fugir de mim. Hoje talvez eu entenda. Hoje talvez eu entenda todas as pessoas que fogem do colo e da segurança.

Porém, mesmo que entendesse não poderia perdoá-lo. Todo o vazio que me foi imposto sentir... Toda a falta que eu senti com essa dor e esse desejo dele junto a mim...

Ele voltou. Voltou e eu disse não. Disse um não bem grande e com firmeza porque sabia que ele retornaria de mãos vazias e que nada poderia me acrescentar.

Eu o esqueci, e há pouco no portão quando um outro me beijou e partiu eu pensei se ele por alguma razão seguiria a conduta do outro e não voltaria tão cedo. Se só voltaria quando não tivesse lugar pra ficar.

Pergunto-me se sou um bom colo, um bom aconchego, pois os homens voltam e me consomem sem pedir licença e obrigam-me a aceitar essas migalhas de atenção, já que expõem e estimulam em mim meu lado mais vulnerável e necessitado de carinho humano possível.

Eles partiram. Um me dando um beijo e um até logo. O outro dizendo que nunca mais voltaria se eu não abrisse a porta. Um foi sumindo aos poucos, até que seu corpo contra luz virou um borrão e de borrão virou saudade. O outro deixou o vazio que eu sabia que deixaria, mas que eu jamais imaginaria ser capaz de superar. Um ainda está presente em memórias, em desejo. Mas me lembro do pacto que fiz a mim mesmo, das outras preocupações que tenho e das demais vontades que precisam ser atendidas.

Um partiu me dizendo meio que entrelinhas que gostava de mim sim. O outro partiu dizendo que me amava. Os dois, tão diferentes de si, que me apresentaram e que nutriam por mim sentimentos tão difusos, esses dois decidiram partir cada um no momento que acreditou ser melhor, mas ambos foram e me deixaram. Mas por incrível que pareça, em todos os momentos que foram, eu estava preparado.


Podem ir, com beijo ou sem beijo. Eu não prometo esperar, pelo contrário, não irei. Só quero que saibam que ao partir não quebraram algo aqui dentro de mim, e sim deixaram o terreno mais sólido para que o próximo venha, não me destrua e possa também partir, calmo, sereno e livre. 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Talvez eu entenda amor de amigo.

Eu quis sofrer por amor, eu quis ser arrebatado por essas coisas que dizem que a gente sente quando ama. Eu não entendo de amor. Sou sincero o suficiente pra rir de mim mesmo e gritar que não entendo nada de amor. Mas eu quero amar. Eu já escrevi infinitas vezes como eu amo demais, como há paixão dentro de mim que precisa ser consumida. Mas eu não sei amar. Não sei amar porque não me deixam. Porque todo esse amor que tem aqui dentro de mim, fica comigo mesmo. Então, não fui arrebatado pelo amor, por mais que eu quisesse. Não fui, porque não me foi permitido. Não fui, porque não deu tempo. Eu quis chorar no chão da cozinha, eu quis que aquele álbum do Caetano fizesse sentido. Eu quis com plena consciência, chorar por alguém na frente de um filme idiota, me jogar na cama achando que não há mais sentido pra vida.

Mas eu não fiz nada disso.

Eu não fiz, porque não deixaram. Porque não deu tempo. E eu segui. Sem mandar uma mensagem falando o quanto eu poderia amá-lo se ele deixasse. Eu segui sem falar muito bem sobre o que eu sentia com meus amigos. Eu segui sem escrever as dezenas de textos tristes e apaixonados que eu achei que escreveria, pra variar um pouco dos textos sobre o vazio e sobre o nada que geralmente faço. Eu segui sem entender poesia, sem me jogar no chão da cozinha, sem destruir minha vida acadêmica e profissional porque só conseguiria pensar em alguém. Não. Eu nem liguei, eu não sofri por amor, porque não me deixaram, porque não deu tempo.
A vida não parou de fazer sentido. Eu não fui arrebatado. Continuo aqui, achando que não sei bem amar, ou sei, mas não me deixam, não dá tempo.

O amor não é algo tão universal quanto dizem, tem gente que... Simplesmente não entende.