segunda-feira, 27 de abril de 2015

Meu exagero

Às vezes acho que a culpa de grande parte dos meus problemas é a minha preguiça, que me impede de procurar um terapeuta. Eu preciso tratar a minha instabilidade, a minha dramatização de tudo. Porque sim, admito que sou o exagero em pessoa. Acredito que minha vida é um drama, mas não, ela não é. Eu não tenho tanta história pra contar. Eu não tenho tanta gente entrando e saindo assim da minha vida. Tem só minhas crises de vez em quando, ocasionadas por coisas insignificantes. Sempre fui assim. Foi desse jeito demasiado infeliz e em excesso que pensei no suicídio lá na adolescência, que de fato jamais teria coragem de fazer. Nem mesmo me cortar e ser um emo decente eu pude. Sempre tive medo do sangue e nunca quis realmente me ferir. Fui uma overdose de pessoa quando liguei, na quinta série, pra mãe do meu ex melhor amigo, tentando ser anônimo, e dizendo que ele havia me dado um soco no colégio.  Extrapolei ao chorar como se não houvesse amanhã, quando aquele garoto que eu poderia, e só poderia, ter me apaixonado, saiu com outro para um escurinho. Eu vivo intensamente as poucas coisas, porque parece que delas minha vida é feita. Então sim, choro por coisas que nem começaram. Sorrio por essas coisas também. Escrevo sobre meus sentimentos medíocres, egoístas e imaturos, já que nada melhor tenho pra escrever. Procuro e procuro por histórias avassaladoras, que me deixem no chão da cozinha, mas só consigo bons papos nela. Faço promessas a entidades que não tenho fé, em busca de algo que nem sei. E posso ser sim infantil, birrento, realista ou emotivo demais, dependendo da situação, contudo, ninguém pode negar que eu tenho esperança. Dramatizando minha vida, eu preparo o terreno pra uma vida que espero ter. Chorar por quem merece minhas lágrimas. Sorrir por quem realmente merece meus sorrisos. Correr sem direção a alguém que está de braços abertos pra mim. E por uma vez só, uma vez só é tudo o que eu peço, tornar todo esse drama, em coisa concreta, boa, simples e feliz.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Mágoas

     Eu sem você não sou nada, eu sem você sou apenas mais um vagando entre essa gente sem rumo. Sempre disseram que éramos partes que se completavam. Por mais que a teoria de que dois inteiros é que formam um relacionamento, sempre gostei de pensar que você era a minha outra parte nesse mundo. É o que diziam e é o que eu sentia. Quando conversávamos sobre aquele álbum novo de rep, quando fumamos juntos, quando saíamos por aí sem saber aonde chegaríamos. Eu tinha certeza que seríamos sempre isso. Mas há mágoas. Há coisas que a gente põe no armário, empurra com a barriga... E quando vê, tá tudo caindo sobre nossas cabeças. Existe um oceano inteiro entre nossos corações. Não nos identificamos mais. Não nos vemos mais no olhar do outro. E todos ficam chocados. Todos se sentem mal por errarem os palpites de que seria pra sempre. Se nós não damos certo, ninguém mais dará, é o que pensam. Parceiros perfeitos, amizade mútua. E a mágoa leva. A vida se encarrega de pegar, e deixar saudade, ou às vezes, só mesmo o vazio. E você tá ocupado demais com seu trabalho, sua cerveja barata, seu cigarro ruim. E eu continuo aqui, magoado, ferido. Os dois achando que o outro não foi o suficiente. Exigimos sempre tanto dos outros. Exigimos sempre tanto uma doação dos outros, mas esquecemos de nos doar. O mundo tá tão egoísta. O que será do futuro das relações? Uma família Jetson feita hoje poderia apostar num mundo de solidão. Ah, talvez seja a mágoa falando mais alto agora. Muito provavelmente ainda haja esperança no mundo, e apenas nós que somos fracos e individualistas. As pessoas ao nosso redor erraram o palpite pois não puderam prever que somos burros demais pra ouvir o outro. E todos os álbuns e drogas, e conversas triviais e aventuras juntos... Tá tudo entrando numa ida sem fim pra sessão nostalgia da nossa memória. E nossa vida? Ela continua. Rápida, vazia e magoada. 

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Rotina

    Você acorda e faz seu café, mesmo com a dor no estômago. A dor de ficar sem cafeína é pior. Pela manhã faz as coisas meio que motivado, por mais que se canse em vários momentos. É difícil não se entediar nesses tempos modernos. No almoço quer ir a algum restaurante bacaninha e fingir que está em Sex And The City. Mas tudo o que você tem é um pouco de carne no congelador e o arroz de ontem na sua casa. Pela tarde é necessário mais cafeína. O sono vem sem atenuante, sem modéstia ou receio. O que melhor você teria para fazer nessas lindas horas vespertinas, se não dormir? Mas você tem que ganhar o dinheiro pra comprar aquela calça nova, sair com aquele carinha do Tinder no sábado e finalmente pagar sua amiga. O fim de tarde chega, e em 50% dos dias você sente que realmente foi um dia produtivo, e nos outros 50% você acredita que não fez nada útil desde que acordou. Os dias têm lá suas exigências diferentes, e nem sempre você precisa se esforçar tanto. E então, vem a noite. Tem mais jantar pra fazer, e arroz e feijão, e mais carne pra descongelar. Tem louça. Mas também tem banho quente, e ah, como é bom banho quente! Tem a sua série do momento, mas tem também crise. Por que tudo isso? Você está realmente fazendo certo? E esse vazio? Você tá na profissão certa? Procurando amigos e pessoas pra se relacionar no lugar certo? Você vai ser feliz assim? E se tudo foi um engano? E se seu caminho não deveria ter sido esse? Não era pra você se sentir mais preenchido? O vazio é o mesmo, aquele que te consome quando não lhe resta ninguém. É impossível, porém dizer como é não senti-lo. A gente esquece que no dia seguinte tá lá fazendo café de novo, e que nem vai lembrar que chorou com saudade de casa na noite anterior. Que refletiu, refletiu e a conclusão nenhuma chegou sobre o rumo que está dando a sua vida. Até aonde vai chegar indo por esse caminho? Até onde você quer chegar? E quer chegar com esses seus pseudos talentos mesmo? Seu lado fraco fala, grita. Você duvida de si mesmo. É tão difícil sair da zona de conforto, é tão duro não saber ao certo pra onde está indo. É a falta de alguém? É a falta da identificação com algo? A felicidade é algo que você não sabe lidar muito bem, ela é inconstante para ti. Ela vai e vem sem piedade. Só resta o vazio. E tenta aprecia-lo, dizer que faz parte de si e que tem beleza na solidão. Talvez até tenha. Mas porque viemos para o mundo para tanta solidão? E vai ser sempre assim? Há tantas perguntas, há tantas dúvidas, há tanta saudade da mãe. Mas a única coisa que resta é sua cama agora. Sua cama e amanhã talvez, se tudo seguir no caminho, mais uma xícara de café e mais um dia possivelmente produtivo, possivelmente não. 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O maldito "Q" a mais

        Você acha que tem tudo. Que tem um chão, que tem segurança, que tem estabilidade. Que tem controle sobre sua vida acadêmica, sobre a vida dos seus amigos, sobre seu dinheiro. Você acha que na verdade só falta um rumo pra sua vida, porque de resto tá tudo bem. Você sai com um cara, e é incrível. Você sai com esse cara e quer mais. Tem medo de onde pode levar, mas é tão bom, é tão juvenil, é tanta poesia e coisa boa na sua vida. Mas é claro que autocontrole não é uma característica muito presente em você. E de repente, todo seu chão se vai. Toda sua fraca estabilidade, sua pobre segurança são engolidos por um mar de insegurança, de medo, de incerteza. Sua base nunca fora muito bem cultivada. Você estava passível de ser afetado por todas as feridas nunca cicatrizadas. E claro, que se seu chão se vai assim, você põe a mão entre as pernas (é assim o ditado?) e não vai pra frente. O seu buraco negro cresce. Não era paixão. Mas era um encantamento. Sabe aquele “Q” que algumas pessoas carregam? Sabe aquela coisinha a mais que sua avó disse ter encontrado no seu avô, e por isso se casaram? Às vezes eles nem tiveram tempo de se apaixonar, e casaram, por todo o contexto, mas eles tinham aquele maldito “Q”. E você jura que encontrou aquele “Q”, mas as pessoas não são formas, não são perfeitinhas e sei lá, não passam pelos mesmos filtros, não admiram as mesmas coisas. E então, você não foi o “Q” dessa pessoa. E é por isso que o vazio te consome agora. É por isso que achas que o vazio sempre consumirá. Nem é falta de candidatos, ou de procurar. Mas parece que temos – e digo no plural, porque encontro muito mais gente nessa por aí – a mania de querer quem não quer a gente. A mania de achar que a pessoa só não gosta da gente ainda, porque não nos conhecemos direito. Não! Sabe quando você sai com alguém, e é legal, mas é só isso? E você quer que ela transe com você e saia da sua cama? Você é esse que deve se levantar e ir embora. E enquanto isso você tá lá achando que foi a melhor transa da sua vida. Mas o “Q” não está em duplicidade no caso. Você precisa já se despedir desses olhos castanhos. Dessa boca torta. Desse olho vermelho de tanto coçar. Dessa cabeça inquieta. Porque só você sentiu, e quer saber? Isso já tá bom demais.