quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

(Re) descobrindo a cidade

Quando você chega a uma cidade nova tudo tem um gosto especial, a primeira vez que vê as pessoas que serão suas melhores amigas daqui pra frente, ou as pessoas que inicialmente são amigas, mas o tempo passa e as leva antes mesmo de grandes emoções estarem envolvidas. A primeira vez que conhece um bairro novo, pega um ônibus desconhecido. Em uma cidade nova não há o pudor de conversar com um estranho, ninguém sabe quem você é mesmo, e então você conhece pessoas no ponto de ônibus, na fila do banco, no estacionamento do shopping.

Só há um problema, em algum momento você constrói laços sólidos e também uma rede de conhecidos, e agora existe um nome a zelar. Tudo o que eu disse acima para de fazer sentido e você sente que os olhares podem voltar-se a qualquer momento pra ti.

Uma amiga disse que estava cansada da nossa ex nova cidade, agora apenas nossa cidade. O meu processo de desapego da minha cidade natal foi muito rápido e intenso, o dela com certeza não. Mas me pegou de surpresa sua declaração. O que é estar cansada de uma cidade?

Eu sai do interior dizendo que nunca mais voltaria, chorando sim pela dor da saudade iminente, mas eu nunca mais pretendia morar lá. Aqui, agora, eu olho pro gostinho especial do começo e sinto uma saudade, e vejo que eu e todos os meus amigos de lá que estão ainda aqui comigo não são mais os mesmos. Aquilo já é passado, um tempo distante que está presente dentro dessa vida que era pra ser nova. Minha amiga está cansada da cidade, das pessoas talvez, mas pode ser que ela só queira sentir o gostinho do novo de novo. Descobrir o que tem ao virar cada esquina nova, sentir o ar de um ambiente novo.

Algumas horas depois do “estou cansada dessa cidade” fui ao meu whatsapp e olhei todas as últimas conversas, pra lembrar a mim quem é que estava fazendo parte realmente da minha vida nesse momento. Daquela época do começo alguns gatos pingados, que eu amo muito aliás. Amigos do interior alguns também, e notei que está tudo fragmentado, amizades de anos, amizades de meses, e percebi que ainda há o mistério ao virar em uma esquina, porque a vida é tão louca e tem tanta gente no mundo, que alguém novo pode surgir assim do nada. Eu não fico sedento esperando que a vida me traga uma infinidade de contatos, amizades de saídas rápidas ou coisas do tipo. Pode ser que num ano inteiro apareçam uma ou duas pessoas que façam valer a pena. E pode ser que o ano me leve mais pessoas do que traga, mas é tudo uma questão de aqui e agora, e de aproveitar o que cada um pode nos dar com humildade. É tosco, mas a questão é qualidade e não quantidade.


Tenha sempre o gosto do novo na boca estando aberto a ele, enxergue possibilidades por onde passa, veja esperança nessa sua cidade que acha incapaz de te trazer coisas novas. Há a chance, e eu afirmo que ela é grande, de você voltar a se apaixonar por esse novo lar. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O mundo é um lixo

Sua cabeça doía muito quando chegou em casa exausto, pensando em tudo que ocorrera no dia e em como gostaria de não ter vivido nada daquilo. No caminho de volta tudo girava e a náusea lhe afetava. Sentou na sua cama, abriu a janela e acendeu um cigarro. Riu de si mesmo por fumar nesse momento que seu corpo pedia por saúde.

No celular, dois amigos e um casinho lhe chamavam, mas ele estava envolvido em seus próprios devaneios e sedento por sua solidão. O mundo podia explodir, ou se isso fosse trágico demais, só ele. Sua existência era desnecessária, incômoda e insignificante. O mundo não dava a mínima pra ele pensou, sou dramático pensou em seguida. O terceiro cigarro já estava entre seus dedos quando lembrou-se de sua mãe, dela herdava as dores de cabeça, o mal humor e também a certeza de que o mundo não lhe dá nada, e que só nós mesmos nos preocupamos com nossa felicidade e bem-estar.

Ninguém o fizera mal diretamente, ele que se acabava com o álcool, os cigarros e a vontade de desaparecer de tudo e todos constante em sua vida. Porém as pessoas o irritavam, era dotado de uma postura incomum em relação à sociedade: todos são um lixo. Era passageiro, sabia. Amanhã amanheceria bem, com vontade de falar com todas as pessoas que ignorava nesse momento, mas lhe incomodava tanto a maneira como essa tristeza e essa raiva, essa angústia e agonia vinham. Queria afastar todos, para o bem deles às vezes, outras para o seu próprio bem. Ou seria prazer?

Tinha uma incerteza profunda do que fazer a seguir, tinha um desejo surreal de ver beleza no mundo. Tinha a mais pura vontade de que as coisas fizessem sentido e que um dia parasse de ser só, de se fazer só, ou melhor, de se querer só.

O personagem dessa história vive solitário em sua bolha, como tantos outros no mundo. O personagem dessa história só quer ser amado, tem vontade de amar, mas medo demais talvez, ou essa coisa estranha de querer e de repente não querer mais. Porque ele é confuso, pessimista e não entende o que sente.  O personagem dessa história pode ser qualquer um, que por um motivo claro ou não, parou de enxergar a luz das coisas.