terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Amar dói?

I
- Mas você o ama?
O doutor me pergunta isso sentado em sua cadeira, me olhando com seus olhos pequenos e boca torta. Parece se perguntar por que cursou faculdade por cinco anos para ouvir asneiras juvenis.
- Eu não sei dizer. O que é o amor?
Ele se inclina para frente na cadeira, me encara e sua expressão se suaviza. Assim ele parece mais jovem, com menos rugas do que o habitual.
- Amor segundo o Aurélio é um sentimento intenso no qual duas pessoas se atraem. Pra mim é a inocência de alguém em achar que é possível ser feliz a dois.
- O senhor parece ter sofrido por amor.
- E quem não? Mas me diga, você o ama?
- É essa a questão. Eu quero estar com ele, abraça-lo, envolver meu corpo junto ao dele na cama. Mas quando estamos juntos, eu não sei o que sinto, é diferente de tudo o que já senti.
- E o que foi isso que já sentiu garota?
Ele agora parece interessado no assunto, talvez porque o assunto o toca, talvez porque precise mesmo me ouvir por uma hora e tenha dado o braço a torcer pra essa história.
- Todas às vezes que amei antes, ou achei que amava, eu tinha em algum momento um sentimento de posse, havia também a necessidade de estar com a pessoa sempre. Com ele não. Eu não quero devorá-lo, tê-lo só pra mim. E quando estamos juntos, não sinto nada. Pode ser isso o amor, então? Essa paz que ele me dá, se é que isso é paz. Talvez, após tantos relacionamentos, eu encontrei um ponto de equilíbrio?
- Veja bem minha querida, se você não sente nada, como pode ser amor?
- Mas...
- Dói?
- O que?
- Seu coração. Amá-lo, dessa forma que me diz que traz paz. Dói, em algum momento pelo menos?
- Não, não dói. Nem nunca doeu. Acho isso incrível.
- Mas se não dói, como pode amá-lo?
- Amor é isso doutor? Se doer?
- Acredito que você esteja perguntando pra pessoa errada o que é o amor. O que posso lhe ajudar é tentar decifrar se existe ou não algum sentimento seu por este rapaz.
- O que eu poderia fazer?
- Acho que encontrar pistas, de fato, seria o indicado. Não há como uma pessoa passar em branco na sua vida, não uma que você se relaciona.
- E quais pistas poderiam ser essas, doutor?
- Em algum momento você terá uma necessidade imensa de tê-lo, e não poderá. Deve doer nesse momento se você o ama. Pode ser também que o ronco dele a noite te atormente, se isso acontecer você provavelmente não o ama. Se você lembrar-se dele com uma música triste, ou feliz, isso será o indicativo de alguma coisa. Se fala dele pra seus amigos e família, provavelmente o ama. Se quiser mostrá-lo para o mundo, pra pessoas que não dá a mínima, postar fotos com ele nas redes sociais, bem, daí provavelmente não o ama.
- Quero descobrir o que se passa dentro de mim.
- Vá fundo dentro de você, e volte daqui algumas semanas pra conversamos, tenho certeza que já terá uma resposta.
- Obrigado doutor.

II
Ela se levanta decidida, sorri e abre a porta. Provavelmente não a verei daqui algumas semanas. Se estiver certo isso demorará muito mais. Boa sorte para essa jovem e seu possível amor.
São duas horas, a próxima consulta irá começar.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Incertezas

Eu tenho tentado descobrir motivos para escrever, motivos reais e profundos, que fujam à regra dos meus demônios e preocupações constantes, quem sabe escrever sobre a felicidade ou coisas triviais e encantadoras. Levar a minha escrita a outros cantos da mente e do coração das pessoas.

Não sei se consigo, não sei se tenho esse dom. Na verdade estou em um momento em que tento avaliar tudo aquilo que sou bom, pois tenho 19 anos e ando perdido e um tanto quanto incomodado com a possibilidade de não ser muito bom em nada. A possibilidade de uma vida medíocre me aterroriza, contudo da mesma forma me pergunto o que é, de fato, uma vida medíocre.

Tenho medo de não ser um sucesso absoluto em alguma área? O que eu quero pra minha vida? Eu tenho essa mania de deixar perguntas em meus textos, mas é só porque gosto de deixar claro a meus leitores que não faço ideia do que estou fazendo, e que se eles estão perdidos, eu estou também. Se vocês estão nesse barco, eu to junto.

Tenho tentando ler mais, ver mais filmes, ir a lugares novos só pra ver se minha bolha aumenta e eu consigo ser realmente profundo e experiente pra escrever algo útil. Às vezes acho que tudo isso deveria ter sido feito na infância, tem toda uma explicação de Freud sobre como certas coisas podem tornar adultos criativos. Se isso for verdade, bom, meu tempo já passou e tudo isso aqui é uma grande perca de tempo. Caso não seja, pode ser que algum dia a qualidade do que escrevo melhore, a quantidade de leitores aumente e tudo comece a fazer algum sentido.

Estou com medo, pois não sei quais passos dar a seguir, está tudo em aberto. É tão assustador não ter o controle do que pode vir, deixar apenas que venha não é seguro para mim. E eu gosto de segurança, gosto dos braços firmes da vida ao meu lado me dizendo que tudo vai ficar bem e que o caminho já está feito. Mas não há nada disso, nunca houve. Nossos caminhos simplesmente vão se contornando e nós embarcamos, na escolhas que fazemos todos os dias.

Se você é mais velho, provavelmente estará rindo de minhas inseguranças agora ou, no pior dos casos, estará se identificando com os temores e isso não me ajuda, pelo contrário, só confirma que na verdade está tudo mundo no mesmo barco.

Eu sei que devo deixar o tempo passar, me aprimorar e ver como as coisas acontecem. Eu só não consigo ser tranquilo assim pra deixar a maré me levar de forma calma.
Em alguns anos teremos essa mesma conversa, e tudo estará diferente. Apenas espero que as coisas façam sentido nesse tempo, e que o medo de hoje seja a certeza do amanhã.