I
- Mas você o ama?
O doutor me pergunta
isso sentado em sua cadeira, me olhando com seus olhos pequenos e boca torta.
Parece se perguntar por que cursou faculdade por cinco anos para ouvir asneiras
juvenis.
- Eu não sei dizer. O
que é o amor?
Ele se inclina para frente
na cadeira, me encara e sua expressão se suaviza. Assim ele parece mais jovem,
com menos rugas do que o habitual.
- Amor segundo o
Aurélio é um sentimento intenso no qual duas pessoas se atraem. Pra mim é a
inocência de alguém em achar que é possível ser feliz a dois.
- O senhor parece ter
sofrido por amor.
- E quem não? Mas me
diga, você o ama?
- É essa a questão. Eu
quero estar com ele, abraça-lo, envolver meu corpo junto ao dele na cama. Mas
quando estamos juntos, eu não sei o que sinto, é diferente de tudo o que já
senti.
- E o que foi isso que
já sentiu garota?
Ele agora parece
interessado no assunto, talvez porque o assunto o toca, talvez porque precise
mesmo me ouvir por uma hora e tenha dado o braço a torcer pra essa história.
- Todas às vezes que
amei antes, ou achei que amava, eu tinha em algum momento um sentimento de
posse, havia também a necessidade de estar com a pessoa sempre. Com ele não. Eu
não quero devorá-lo, tê-lo só pra mim. E quando estamos juntos, não sinto nada.
Pode ser isso o amor, então? Essa paz que ele me dá, se é que isso é paz.
Talvez, após tantos relacionamentos, eu encontrei um ponto de equilíbrio?
- Veja bem minha
querida, se você não sente nada, como pode ser amor?
- Mas...
- Dói?
- O que?
- Seu coração. Amá-lo,
dessa forma que me diz que traz paz. Dói, em algum momento pelo menos?
- Não, não dói. Nem
nunca doeu. Acho isso incrível.
- Mas se não dói, como
pode amá-lo?
- Amor é isso doutor?
Se doer?
- Acredito que você
esteja perguntando pra pessoa errada o que é o amor. O que posso lhe ajudar é
tentar decifrar se existe ou não algum sentimento seu por este rapaz.
- O que eu poderia
fazer?
- Acho que encontrar
pistas, de fato, seria o indicado. Não há como uma pessoa passar em branco na
sua vida, não uma que você se relaciona.
- E quais pistas
poderiam ser essas, doutor?
- Em algum momento você
terá uma necessidade imensa de tê-lo, e não poderá. Deve doer nesse momento se
você o ama. Pode ser também que o ronco dele a noite te atormente, se isso
acontecer você provavelmente não o ama. Se você lembrar-se dele com uma música
triste, ou feliz, isso será o indicativo de alguma coisa. Se fala dele pra seus
amigos e família, provavelmente o ama. Se quiser mostrá-lo para o mundo, pra
pessoas que não dá a mínima, postar fotos com ele nas redes sociais, bem, daí
provavelmente não o ama.
- Quero descobrir o que
se passa dentro de mim.
- Vá fundo dentro de
você, e volte daqui algumas semanas pra conversamos, tenho certeza que já terá
uma resposta.
- Obrigado doutor.
II
Ela se levanta
decidida, sorri e abre a porta. Provavelmente não a verei daqui algumas
semanas. Se estiver certo isso demorará muito mais. Boa sorte para essa jovem e
seu possível amor.
São duas horas, a
próxima consulta irá começar.