sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A casa dos meus pais

Cheguei em casa ontem de madrugada, a casa onde moram os meus pais e que não sei até que ponto realmente ainda posso chamar de minha, e acendi as luzes do atual quarto de visitas que recebeu uma pequena reforma no dia e eu ainda não tinha conferido. O quarto quase vazio de móveis, com uma velha máquina de costura e um armário, era sem vida. As paredes limpas evidenciavam que ninguém, de fato, morava ali. Esse espaço, agora ocupado principalmente nas festas de final de ano, um dia teve minha irmã, que colava recortes de revista do cantor Daniel na parede e atrás da porta e ficava o dia inteiro ouvindo música isolada do resto da família. Eu, o irmão caçula, necessitava de permissão para entrar ali, até porque meu histórico já não era muito bom – quando ela era pequena e eu só um bebê, destruí várias de suas bonecas.

Fui para o meu quarto, ao lado, e percebi que ele só carregava o status de “meu” pela frequência pela qual visito minha cidade natal. Se eu fosse como minha irmã, muito mais desligada emocionalmente dessa cidade, ele se tornaria mais um quarto de visitas que potencialmente seria meu no Natal. Lembrei também que um dia nessa família houve uma vó, mãe de minha mãe, que ocupou esse meu quarto, colocando nele longas cortinas floridas e uma penteadeira cheia de perfumes e cremes. Até ela morrer eu não tinha um lugar só meu na casa, meu tio por alguns anos ocupou o quartinho dos fundos, eu não dividia em hipótese nenhuma o de minha irmã, e me restou até certa idade o berço no quarto de meus pais.

Hoje não há mais vó, ela faleceu quando eu tinha sete anos. Hoje não tem mais tio, ele foi embora há muitos anos pra seguir sua vida. Hoje não tem mais minha irmã, que tem uma vida, na medida do possível, feita. Hoje não tem nem mesmo eu, que vou embora novamente pra minha atual cidade dentro de uma semana pra estudar e trabalhar. Têm ainda meus pais, no seu poderoso quarto, dormindo despreocupadamente. Pensei que um dia também nem mesmo eles existirão, e a casa que tanto lutaram pra construir não haverá moradores. Não há filhos que tenham a perspectiva de morar aqui um dia. Essa construção, esse bocado de tijolos e cimento está fadada a ter mais um quarto vazio um dia, como esses outros que já enfrentam a solidão.

É difícil pensar na morte como um fato, pra mim, pra vocês e nossos pais. Mas ela existe. Tratei de tirar esses pensamentos da cabeça, eles terão ainda décadas lindas de vida, com muitas idas e vindas minhas pra cá.

Um dia essa casa será saudade, será tristeza, mas será lembrança também, de uma época que os quartos eram cheios de vida e gritos e conversas podiam ser ouvidas na cozinha. 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Deixe as aranhas em paz

Devia-se fazer uns quarenta graus no domingo mais quente do verão até então. Quatro amigos e eu fomos até uma cachoeira escondida em uma propriedade na zona rural, cercada de grandes árvores. Não estávamos sozinhos, e naquele calor não era de se espantar.

Mas na cachoeira não existia quentura, era o lugar mais agradável que se podia estar, com uma queda d’água grande e bonita, de água fresca e tudo estava em paz. Os pássaros cantavam, o rio corria e nós humanos estávamos ali aproveitando tudo que a natureza podia nos dar, respeitando-a. Éramos intrusos, forasteiros, aproveitadores da doçura das águas e das plantas.

Nem todos pensam assim, ou pelo menos nunca pararam pra pensar. Era possível observar latas de cerveja no meio da mata, gritando com seus tons quentes entre o verde profundo.

Somos acostumados a acreditar que o mundo se curva a nós e está aqui para nós e deve nos servir. Ninguém nos diz que somos apenas um ser, entre vários seres, que somos só mais uma engrenagem na máquina da vida. Máquina essa que, sejamos sinceros, funcionaria muito melhor sem nossa interferência brutal e impiedosa.

Subimos o rio, raso e sereno, e olhamos para o céu. As copas das árvores escondiam o sol quente da tarde, e pouco acima das nossas cabeças existia um verdadeiro reino: aranhas. Centenas, formando teias enormes e que se estendiam ao longo do rio. Encostamo-nos a algumas rochas, e avistamos uma borboleta voando nervosa por entre as armadilhas das aranhas. A pobrezinha sabia estar em uma enrascada e buscava uma saída apressada dali. Se encostasse em alguma... Ficamos apreensivos, uns torcendo pelo animal voador, outros sabendo que tudo era uma questão de cadeia alimentar.

Por fim, voou para longe do iminente perigo, prolongando mais um pouco sua curta vida. Foi como assistir a um documentário do National geographic ao vivo.

Subindo também o rio, avistamos uma senhora com sua provável filha. Tentamos alertá-las com gestos que deveriam se baixar por causa das aranhas. Elas entenderem o perigo, mas ao invés de tentarem se manter neutras ao ambiente, pegaram um galho jogado na mata e começaram a desbravar o rio. Ficamos chocados. As inocentes aranhas que há pouco quase se deliciaram com uma borboletinha agora eram atacadas por humanos desprezíveis e inúteis.

Nos sentimos errados naquele santuário. Todo mundo deveria ir embora e deixar em paz a vida que existia ali, já não basta todos os animais que matamos em nossas cidades e lares?
Infelizmente, enquanto nós homens não entendermos que só somos uma parte, consciente do seu papel, aliás, a vida na Terra continuará em risco e derrubaremos lágrimas por toda a devastação que mudanças no clima e outras consequências da destruição da natureza podem trazer.

A mudança pode começar num dia quente numa cachoeira no meio do nada, basta sairmos do nosso pedestal e sentir a terra a nossa volta. Apreciar, e não matar, lindas e tenebrosas aranhas, caçando borboletinhas em cima dum rio. 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Os 20 e os vícios.

A mesa de estudos vira um grande palco em homenagem à maconha, sedas, faquinha, fósforo. O olho é voraz no celular e no computador. O quarto é pequeno, amarelado pela lâmpada. A verdade é que ele tem um monte de coisa séria pra pensar, um bando de coisa que não sente estar preparado para pensar agora. Definir coisas de viagem, lidar com a família, saber se tudo acabou com aquele rapaz. Então, se é preciso não pensar em problemas agora, um tempo só e gostoso é necessário.

O baseado está entre seus dedos, que ele leva até a boca e traga. A fumaça da maconha é muito mais branca e com um cheiro muito mais marcante do que o cigarro. Será que os vizinhos sentiriam?

Os problemas ainda não existem. Há fome, uma certa raivinha produzida por razões desconhecidas. Pensa nos anos que estão passando, e agora, perto de completar 20 anos, reavalia tudo que está acontecendo. Os laços que estão ficando distantes, os vícios que parecem estar mais fortes.

Sozinho há mais de um mês, gosta de tragar alguma coisa. O cigarro o acompanha, mesmo que seja pouco e impertinente diversas vezes.

Tira fotos de si mesmo pelado, como exercício de amor próprio, talvez? As apaga em seguida feliz com o resultado. 

Pensa que possivelmente está virando adulto, agora é um twenty, e não mais um nineteen, e perder esse teen poderia significar algo muito importante. Ele estava entrando pro hall dos vinte anos, onde as pessoas supostamente devem chegar ao sucesso (o de repente 30 hoje em dia é “de repente 25”).

Pronto, está pensando nos problemas.