segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Deixe as aranhas em paz

Devia-se fazer uns quarenta graus no domingo mais quente do verão até então. Quatro amigos e eu fomos até uma cachoeira escondida em uma propriedade na zona rural, cercada de grandes árvores. Não estávamos sozinhos, e naquele calor não era de se espantar.

Mas na cachoeira não existia quentura, era o lugar mais agradável que se podia estar, com uma queda d’água grande e bonita, de água fresca e tudo estava em paz. Os pássaros cantavam, o rio corria e nós humanos estávamos ali aproveitando tudo que a natureza podia nos dar, respeitando-a. Éramos intrusos, forasteiros, aproveitadores da doçura das águas e das plantas.

Nem todos pensam assim, ou pelo menos nunca pararam pra pensar. Era possível observar latas de cerveja no meio da mata, gritando com seus tons quentes entre o verde profundo.

Somos acostumados a acreditar que o mundo se curva a nós e está aqui para nós e deve nos servir. Ninguém nos diz que somos apenas um ser, entre vários seres, que somos só mais uma engrenagem na máquina da vida. Máquina essa que, sejamos sinceros, funcionaria muito melhor sem nossa interferência brutal e impiedosa.

Subimos o rio, raso e sereno, e olhamos para o céu. As copas das árvores escondiam o sol quente da tarde, e pouco acima das nossas cabeças existia um verdadeiro reino: aranhas. Centenas, formando teias enormes e que se estendiam ao longo do rio. Encostamo-nos a algumas rochas, e avistamos uma borboleta voando nervosa por entre as armadilhas das aranhas. A pobrezinha sabia estar em uma enrascada e buscava uma saída apressada dali. Se encostasse em alguma... Ficamos apreensivos, uns torcendo pelo animal voador, outros sabendo que tudo era uma questão de cadeia alimentar.

Por fim, voou para longe do iminente perigo, prolongando mais um pouco sua curta vida. Foi como assistir a um documentário do National geographic ao vivo.

Subindo também o rio, avistamos uma senhora com sua provável filha. Tentamos alertá-las com gestos que deveriam se baixar por causa das aranhas. Elas entenderem o perigo, mas ao invés de tentarem se manter neutras ao ambiente, pegaram um galho jogado na mata e começaram a desbravar o rio. Ficamos chocados. As inocentes aranhas que há pouco quase se deliciaram com uma borboletinha agora eram atacadas por humanos desprezíveis e inúteis.

Nos sentimos errados naquele santuário. Todo mundo deveria ir embora e deixar em paz a vida que existia ali, já não basta todos os animais que matamos em nossas cidades e lares?
Infelizmente, enquanto nós homens não entendermos que só somos uma parte, consciente do seu papel, aliás, a vida na Terra continuará em risco e derrubaremos lágrimas por toda a devastação que mudanças no clima e outras consequências da destruição da natureza podem trazer.

A mudança pode começar num dia quente numa cachoeira no meio do nada, basta sairmos do nosso pedestal e sentir a terra a nossa volta. Apreciar, e não matar, lindas e tenebrosas aranhas, caçando borboletinhas em cima dum rio. 

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