Devia-se fazer uns quarenta
graus no domingo mais quente do verão até então. Quatro amigos e eu fomos até
uma cachoeira escondida em uma propriedade na zona rural, cercada de grandes árvores.
Não estávamos sozinhos, e naquele calor não era de se espantar.
Mas na cachoeira não
existia quentura, era o lugar mais agradável que se podia estar, com uma queda
d’água grande e bonita, de água fresca e tudo estava em paz. Os pássaros
cantavam, o rio corria e nós humanos estávamos ali aproveitando tudo que a
natureza podia nos dar, respeitando-a. Éramos intrusos, forasteiros,
aproveitadores da doçura das águas e das plantas.
Nem todos pensam assim,
ou pelo menos nunca pararam pra pensar. Era possível observar latas de cerveja
no meio da mata, gritando com seus tons quentes entre o verde profundo.
Somos acostumados a
acreditar que o mundo se curva a nós e está aqui para nós e deve nos servir.
Ninguém nos diz que somos apenas um ser, entre vários seres, que somos só mais
uma engrenagem na máquina da vida. Máquina essa que, sejamos sinceros,
funcionaria muito melhor sem nossa interferência brutal e impiedosa.
Subimos o rio, raso e
sereno, e olhamos para o céu. As copas das árvores escondiam o sol quente da
tarde, e pouco acima das nossas cabeças existia um verdadeiro reino: aranhas.
Centenas, formando teias enormes e que se estendiam ao longo do rio. Encostamo-nos
a algumas rochas, e avistamos uma borboleta voando nervosa por entre as
armadilhas das aranhas. A pobrezinha sabia estar em uma enrascada e buscava uma
saída apressada dali. Se encostasse em alguma... Ficamos apreensivos, uns torcendo
pelo animal voador, outros sabendo que tudo era uma questão de cadeia
alimentar.
Por fim, voou para
longe do iminente perigo, prolongando mais um pouco sua curta vida. Foi como
assistir a um documentário do National geographic
ao vivo.
Subindo também o rio,
avistamos uma senhora com sua provável filha. Tentamos alertá-las com gestos
que deveriam se baixar por causa das aranhas. Elas entenderem o perigo, mas ao
invés de tentarem se manter neutras ao ambiente, pegaram um galho jogado na
mata e começaram a desbravar o rio. Ficamos chocados. As inocentes aranhas que
há pouco quase se deliciaram com uma borboletinha agora eram atacadas por
humanos desprezíveis e inúteis.
Nos sentimos errados
naquele santuário. Todo mundo deveria ir embora e deixar em paz a vida que
existia ali, já não basta todos os animais que matamos em nossas cidades e
lares?
Infelizmente, enquanto
nós homens não entendermos que só somos uma parte, consciente do seu papel,
aliás, a vida na Terra continuará em risco e derrubaremos lágrimas por toda a
devastação que mudanças no clima e outras consequências da destruição da
natureza podem trazer.
A mudança pode começar
num dia quente numa cachoeira no meio do nada, basta sairmos do nosso pedestal
e sentir a terra a nossa volta. Apreciar, e não matar, lindas e tenebrosas
aranhas, caçando borboletinhas em cima dum rio.
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