Você
acorda e faz seu café, mesmo com a dor no estômago. A dor de ficar sem cafeína
é pior. Pela manhã faz as coisas meio que motivado, por mais que se canse em
vários momentos. É difícil não se entediar nesses tempos modernos. No almoço
quer ir a algum restaurante bacaninha e fingir que está em Sex And The City.
Mas tudo o que você tem é um pouco de carne no congelador e o arroz de ontem na
sua casa. Pela tarde é necessário mais cafeína. O sono vem sem atenuante, sem
modéstia ou receio. O que melhor você teria para fazer nessas lindas horas
vespertinas, se não dormir? Mas você tem que ganhar o dinheiro pra comprar
aquela calça nova, sair com aquele carinha do Tinder no sábado e finalmente
pagar sua amiga. O fim de tarde chega, e em 50% dos dias você sente que
realmente foi um dia produtivo, e nos outros 50% você acredita que não fez nada
útil desde que acordou. Os dias têm lá suas exigências diferentes, e nem sempre
você precisa se esforçar tanto. E então, vem a noite. Tem mais jantar pra fazer,
e arroz e feijão, e mais carne pra descongelar. Tem louça. Mas também tem banho
quente, e ah, como é bom banho quente! Tem a sua série do momento, mas tem
também crise. Por que tudo isso? Você está realmente fazendo certo? E esse vazio?
Você tá na profissão certa? Procurando amigos e pessoas pra se relacionar no
lugar certo? Você vai ser feliz assim? E se tudo foi um engano? E se seu caminho
não deveria ter sido esse? Não era pra você se sentir mais preenchido? O vazio
é o mesmo, aquele que te consome quando não lhe resta ninguém. É impossível,
porém dizer como é não senti-lo. A gente esquece que no dia seguinte tá lá
fazendo café de novo, e que nem vai lembrar que chorou com saudade de casa na
noite anterior. Que refletiu, refletiu e a conclusão nenhuma chegou sobre o
rumo que está dando a sua vida. Até aonde vai chegar indo por esse caminho? Até
onde você quer chegar? E quer chegar com esses seus pseudos talentos mesmo? Seu
lado fraco fala, grita. Você duvida
de si mesmo. É tão difícil sair da zona de conforto, é tão duro não saber ao
certo pra onde está indo. É a falta de alguém? É a falta da identificação com
algo? A felicidade é algo que você não sabe lidar muito bem, ela é inconstante
para ti. Ela vai e vem sem piedade. Só resta o vazio. E tenta aprecia-lo, dizer
que faz parte de si e que tem beleza na solidão. Talvez até tenha. Mas porque
viemos para o mundo para tanta solidão? E vai ser sempre assim? Há tantas
perguntas, há tantas dúvidas, há tanta saudade da mãe. Mas a única coisa que
resta é sua cama agora. Sua cama e amanhã talvez, se tudo seguir no caminho,
mais uma xícara de café e mais um dia possivelmente produtivo, possivelmente não.
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