quinta-feira, 9 de abril de 2015

Rotina

    Você acorda e faz seu café, mesmo com a dor no estômago. A dor de ficar sem cafeína é pior. Pela manhã faz as coisas meio que motivado, por mais que se canse em vários momentos. É difícil não se entediar nesses tempos modernos. No almoço quer ir a algum restaurante bacaninha e fingir que está em Sex And The City. Mas tudo o que você tem é um pouco de carne no congelador e o arroz de ontem na sua casa. Pela tarde é necessário mais cafeína. O sono vem sem atenuante, sem modéstia ou receio. O que melhor você teria para fazer nessas lindas horas vespertinas, se não dormir? Mas você tem que ganhar o dinheiro pra comprar aquela calça nova, sair com aquele carinha do Tinder no sábado e finalmente pagar sua amiga. O fim de tarde chega, e em 50% dos dias você sente que realmente foi um dia produtivo, e nos outros 50% você acredita que não fez nada útil desde que acordou. Os dias têm lá suas exigências diferentes, e nem sempre você precisa se esforçar tanto. E então, vem a noite. Tem mais jantar pra fazer, e arroz e feijão, e mais carne pra descongelar. Tem louça. Mas também tem banho quente, e ah, como é bom banho quente! Tem a sua série do momento, mas tem também crise. Por que tudo isso? Você está realmente fazendo certo? E esse vazio? Você tá na profissão certa? Procurando amigos e pessoas pra se relacionar no lugar certo? Você vai ser feliz assim? E se tudo foi um engano? E se seu caminho não deveria ter sido esse? Não era pra você se sentir mais preenchido? O vazio é o mesmo, aquele que te consome quando não lhe resta ninguém. É impossível, porém dizer como é não senti-lo. A gente esquece que no dia seguinte tá lá fazendo café de novo, e que nem vai lembrar que chorou com saudade de casa na noite anterior. Que refletiu, refletiu e a conclusão nenhuma chegou sobre o rumo que está dando a sua vida. Até aonde vai chegar indo por esse caminho? Até onde você quer chegar? E quer chegar com esses seus pseudos talentos mesmo? Seu lado fraco fala, grita. Você duvida de si mesmo. É tão difícil sair da zona de conforto, é tão duro não saber ao certo pra onde está indo. É a falta de alguém? É a falta da identificação com algo? A felicidade é algo que você não sabe lidar muito bem, ela é inconstante para ti. Ela vai e vem sem piedade. Só resta o vazio. E tenta aprecia-lo, dizer que faz parte de si e que tem beleza na solidão. Talvez até tenha. Mas porque viemos para o mundo para tanta solidão? E vai ser sempre assim? Há tantas perguntas, há tantas dúvidas, há tanta saudade da mãe. Mas a única coisa que resta é sua cama agora. Sua cama e amanhã talvez, se tudo seguir no caminho, mais uma xícara de café e mais um dia possivelmente produtivo, possivelmente não. 

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