Eu
sem você não sou nada, eu sem você sou apenas mais um vagando entre essa gente
sem rumo. Sempre disseram que éramos partes que se completavam. Por mais que a
teoria de que dois inteiros é que formam um relacionamento, sempre gostei de
pensar que você era a minha outra parte nesse mundo. É o que diziam e é o que
eu sentia. Quando conversávamos sobre aquele álbum novo de rep, quando fumamos
juntos, quando saíamos por aí sem saber aonde chegaríamos. Eu tinha certeza que
seríamos sempre isso. Mas há mágoas. Há coisas que a gente põe no armário,
empurra com a barriga... E quando vê, tá tudo caindo sobre nossas cabeças.
Existe um oceano inteiro entre nossos corações. Não nos identificamos mais. Não
nos vemos mais no olhar do outro. E todos ficam chocados. Todos se sentem mal
por errarem os palpites de que seria pra sempre. Se nós não damos certo,
ninguém mais dará, é o que pensam. Parceiros perfeitos, amizade mútua. E a
mágoa leva. A vida se encarrega de pegar, e deixar saudade, ou às vezes, só
mesmo o vazio. E você tá ocupado demais com seu trabalho, sua cerveja barata,
seu cigarro ruim. E eu continuo aqui, magoado, ferido. Os dois achando que o
outro não foi o suficiente. Exigimos sempre tanto dos outros. Exigimos sempre
tanto uma doação dos outros, mas esquecemos de nos doar. O mundo tá tão
egoísta. O que será do futuro das relações? Uma família Jetson feita hoje
poderia apostar num mundo de solidão. Ah, talvez seja a mágoa falando mais alto
agora. Muito provavelmente ainda haja esperança no mundo, e apenas nós que
somos fracos e individualistas. As pessoas ao nosso redor erraram o palpite
pois não puderam prever que somos burros demais pra ouvir o outro. E todos os
álbuns e drogas, e conversas triviais e aventuras juntos... Tá tudo entrando
numa ida sem fim pra sessão nostalgia da nossa memória. E nossa vida? Ela
continua. Rápida, vazia e magoada.
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