sábado, 2 de maio de 2015

Madrugada

Estavam todos no bar, dançando e bebendo, acreditando que eu estava ali naquele momento com eles. Beijavam-se e gastavam rios em seus cartões platinium. Eu bebia pouco, fumava muito, e por mais que gostasse de dançar, com aquela música ruim e naquele momento, só pensava em dormir. Nem era cansaço não, era falta de vontade de estar ali. Não me levem a mal. Amo meus amigos, mas sou instável e mimado e me emburro fácil, me canso fácil, me irrito fácil e me entristeço fácil. Sento em um banco e sei que dali não irei mais sair. É o meu momento da festa, onde só espero que todos também se cansem e possamos ir embora. É claro, era apenas uma da manhã, e eu provavelmente ficaria moribundo ali por algumas horas. 

Meu celular, que felizmente trouxe imaginando que precisaria me distrair com ele em algum momento, toca. Perco a chamada mas há uma mensagem sua no whatsapp. Me procura. Eu respondo, talvez você ainda possa me render algumas risadas nessa noite mesmo que eu já esteja sem expectativas sobre nós.

“Onde você está?”, pergunta.
“Em um bar chato, e você?”.
“Em casa. Podemos nos encontrar?”
“Agora?”

Eu seria péssimo com meus amigos se fosse? Eu estaria a me enganar se fosse? Você pode só estar com o vazio corroendo nesse momento, e precisando de uma alma para te preencher. E pela manhã seguinte me ofereceria um café preto e um selinho na minha despedida. É assim que você se doa. Muito por uma noite, mas nada por uma vida. Eu quero mesmo me iludir? Eu poderia somente viver esse momento, sem esperar nada, não é? Eu não seria uma opção fácil da madrugada se quisesse muito te ver e também te usar.

Despeço-me de todos, sem muito falar. Sei que ficarão preocupados, mas deveriam se preocupar ainda mais com minha eminente depressão naquele sofá no qual passaria o resto da noite. Saio, e encaro a madrugada fria, sem estar agasalhado o suficiente para isso. Corro com medo dos perigos que a escuridão pode trazer, que as ruas pouco movimentadas escondem. Você não está muito longe, mas sinto um aperto tão grande agora em meu coração, como se eu estivesse correndo para o nada, o vazio. As luzes da cidade tremem, minha respiração ofega, e finalmente chego.

Você está no portão, com sua camisa de flanela verde que diz te aquecer muito bem. Sorrio, ainda ofegante. Me dá um beijo, que eu não esperava. Geralmente você só me beija às escondidas, nos cantinhos, nos nossos momentos particulares. Me convida pra entrar e oferece um cigarro. Vamos pra janela do segundo andar, e fumamos conversando sobre política, sempre ela, política. Você parece bem, talvez só estivesse com saudade, ou sabe esconder seus sentimentos. Seus beijos não demonstram dor, e me sinto ótimo e pleno com você. Pode até ser que esteja me usando, que não me queiras no seu dia-dia, mas ali comigo, eu sinto sua alma. E valeu enfrentar a noite fria, as ruas escuras, tudo, por estar com você. E pela manhã tomarei o café preto e te beijarei em despedida em frente ao portão, e seguirei em frente. Esperando que se lembre assim de mim quando eu preciso ser resgatado e, que possamos ter mesmo que pequena e insignificante, a nossa história. 

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