quarta-feira, 16 de julho de 2014

Você

   Você me manda mensagem pela manhã. Não respondo. Estou decidido a prestar atenção na aula e ser um bom aluno. No intervalo pego o celular e respondo. Falamos de coisas triviais. Você está no banco, pegou uma fila enorme, mas precisa voltar porque esqueceu os documentos. Te chamo de idiota. Você fala da sua cachorra e eu não dou a mínima para cães. Me convida para sair. Eu digo que sim, mas sem muita confiança, tenho preguiça e um pouco de receio. Conversamos mais e você novamente me chama pra ir a sua casa. Dessa vez eu aceito. Na sexta combinamos. Durante a semana nos falamos sempre e eu começo a gostar e achar que você gosta de mim. É meio que uma fórmula isso, mas com você desde o começo eu levei meio com a barriga, não tive interesse. Não mais. Chega sexta. Você se oferece pra me buscar na faculdade. Recuso. Não sou desses. Digo que vou pegar um ônibus e que pode me buscar no ponto. Tomo o ônibus. Meu Deus como seria ótimo ir de carro, mas lembro que não sou desses. Chego ao destino e te mando mensagem. Você logo aparece num carro que nunca vi antes em minha vida. Entro. Damos um beijo e começamos a conversar. Você me fala de suas viagens e eu pergunto mais da sua vida. Você não me pergunta muita coisa. Acho estranho. Na verdade acho todo o papo meio estranho, meio forçado. Não era assim por mensagens. Chegamos a sua casa. Tem muito verde e você mora num chalé nos fundos. É de tijolinhos e lindo. Entro. A decoração me impressiona. Livros de francês e yoga nas prateleiras de madeira polida. Cores fortes e quadros. É incrível. Estou na sua casa ou em uma casa de novela? Você me oferece água e pergunta se vamos ver o filme do Allen. Eu confirmo. Começamos a assistir em seu notebook. Você quieto. Achei que talvez nessas ocasiões de filme com pretendentes as pessoas se tocam. Nada. Seu cheiro é bom e eu quero te tocar. Me contenho. Quero falar do seu cheiro e atacar sua pele, te devorar. Você também está se contendo ou apenas assistindo o filme? Damos algumas risadas, mas sem conversar. O filme termina. Conversamos sobre suas tatuagens e os idiomas que fala. Me pergunta se quero ver sua dispensa afinal tu é um vegan meio estranho, que medita. Eu topo. Na cozinha há batatas, cebolas, e coisas secas e em pó. Dou risada. Nunca vi uma dispensa tão sem graça. Você diz que é saudável. Eu acredito. Encosto na parede e você na pia. Reparo que estou encostado e lembro que me disse certa vez que me queria na parede. Me beijar e me despir lá. Te olho de um jeito engraçado. O meu sexy. Você percebe e sorri. E é lindo. Quero te beijar. Você vem e rouba um beijo meu. Até hoje eu sinto o gosto. Finalmente seu cheiro está em mim e eu estou louco. Você me puxa até você. Abusa. Para e diz que ainda não conheço seu quarto. Dou uma risada e digo que é verdade. Te sigo. O quarto é no segundo andar e não gosto de escadas circulares desse jeito. Vou com calma. Quando chego você já está lá em cima. Olho pro chão e quando retomo meu olhar você está perto. Me beija. Eu pego no seu cabelo loiro. É comprido e macio. Te jogo na cama. As janelas estão abertas e o sol quente da tarde entra. Subo em cima de você e te beijo. Sua boca é a mais macia que já experimentei. Nos beijamos. Desço até seu peito. Mais beijos. Desço mais e você já sabe. Abaixo sua cueca preta. Estou feliz que não foi propaganda enganosa. Te chupo. Você de olhos fechados. Volto e te beijo. Seu gosto em sua boca. Você me empurra. Sobe em cima de mim. Passo a mão em suas costas e você transpira. Desce minha cueca. Sinto o pequeno prazer de sempre, mas gosto. Nos beijamos, muito. Não quero tornar isso obsceno. Terminamos. Nos jogamos na cama, nus. Ficamos ali parados. Eu nunca passei isso com ninguém antes. Estamos abertos, meio abraçados e pelados na cama. Não falamos nada. Digo que preciso ir embora. Você fala “justo”. Entendo o porquê. Nos beijamos mais, nossos corpos e sexos se encostando. Você diz que é chato em primeiros encontros. Pergunto, sem querer resposta, se isso quer dizer que teremos um segundo. Nos beijamos. Levanto e me visto. Você também. Saímos de sua casa, o sol está se pondo. Tento puxar papo no carro. Você me fala da festa que irá sábado. Não pergunta sobre mim. Acho estranho. Não flui bem. Nada. Me deixa no ponto e te dou um beijo no rosto. Pego o ônibus de cabeça baixa. Estou triste, decepcionado. Sei que você também. Não foi bom, não foi quente. Foi morno. Não te quis com o maior dos desejos. Penso que talvez seja sua falta de assunto desde o começo. Sua falta de interesse. Por que então me beijou? Por que trocamos essa experiência? Decepcionado. Penso se sou o problema. Acho que talvez sim. Penso se é você. Pelo meu histórico talvez não. Sigo pra casa. Acabou. Ou melhor, nem começou. 

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