segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O jeito dela de fazer arte

  E ela estava ali, dançando como se não houvesse amanhã. As flores em seus ombros finalmente leves. O copo em sua mão como um símbolo de sua vitória, de sua liberdade. Dançava ali, sem hesitar, sem se preocupar, em meio a uma música velha, e pequenas luzes que piscam incansavelmente. E era lindo. Todos a sua volta, sem nem perceber, estavam do lado de uma alma livre, forte e brilhante. Ela não era dessas de se lamentar, de viver à sombra de outros. Era forte, do tipo indestrutível.
     - Eu vou para Nova York um dia, serei uma grande artista.
  Você já riu de alguém que disse querer ser um artista? Você já, internamente, sentiu pena de alguém que disse querer viver de sua arte? “Ah, que bobagem, faça uma faculdade e arrume um emprego”. É o que muitos pensam. Mas com ela não.
   - Eu vou para Nova York um dia, serei uma grande artista. Ficarei na história. Você sabe, e todas essas coisas.
  Ninguém ousaria rir de sua determinação. Ela seria uma grande artista. Estava em seu olhar, no seu caminhar, nos seu dançar. Ali, com a cerveja na mão, o vestido vintage delicadamente garimpado do brechó, seu sorriso meio bêbado... Ela era a coisa mais bonita que o mundo já vira, e seria só por isso, uma grande obra de arte. Mas sem vazios, ela era sim alguém com valor. Como disse, forte, brilhante...
 Ela estava ali, dançando e nem percebera meu olhar. Não era a cobiça, o desejo, a excitação, era um amor, desses que você sabe que poderia realmente amar. Desses que você sabe, de longe, que seria perfeito. E ela era perfeita.
  Você já imaginou a sua vida inteira com alguém, sendo esse alguém uma pessoa que acaba conhecer?
  Ela seria uma artista, eu vi em seus olhos ao falar comigo. E eu gostaria tanto de ser o motivo para uma de suas obras. Poderia ser de amor, de dor, de rancor... Mas eu teria passado e experimentado um pouco dessa vida. Mesmo que tenha certeza que jamais poderia esquecê-la. De qualquer maneira, eu seria talvez um quadro, uma música, uma poesia. E quem sabe, toda a vida que pensei que pudéssemos ter, ficasse eternizada em sua arte. Que só de estar ali dançando, sem nenhum sentido, já era boa demais pra mim. 


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