Faz
um calor insuportável quando entro no ônibus. Ele está levemente cheio, e os
únicos bancos vazios encontram-se aonde o sol bate. Rapidamente analiso se
prefiro morrer de calor sentado ou morrer de cansaço em pé. O dia de trabalho e
faculdade me faz escolher a primeira morte. Sento sozinho num banco ao sol,
implorando a Deus que a viagem seja curta, mesmo eu sabendo exatamente quanto
tempo levo para chegar até o meu destino de todos os dias.
Sem
prestar muita atenção, seja pelo inicio de insolação ou pura distração, um
rapaz senta ao meu lado. Aquela olhada rápida de “quem é que está sentando ao
meu lado no ônibus” me faz enxergar que o rapaz é lindo. E puta merda, que
lindo. Desses que a gente, normalzinho, pensa “como que Deus dá tanto pra uns,
e tão pouco pra outros?”. Mas não é a barba, ou as tatuagens, ou a certeza que
ele deve ser muito foda e fazer um curso muito foda pra ter tanto estilo assim,
afinal é um ônibus de rota universitária, mas o que mais me impressiona, que me
deixa em êxtase, ali, a sei lá quantos graus Celsius, ferrado, cansado e com
fome no transporte público, é o cheiro de cigarro mentolado que ele exala.
Podia ser cigarro comum, podia ser cheiro de qualquer coisa, até aquele cheiro
de homem. Mas era cheiro de cigarro mentolado, e era forte pra chegar até mim.
Eu nunca tinha reparado em ninguém com essa característica, confesso. A gente
repara em cheiro de perfume, ou cheiro de pele, né não? Mas talvez por eu ser
um pseudo-fumante de balada e momentos tristes, talvez por amar cigarro
mentolado, talvez pelo cheiro ser adocicado e convidativo. Não sei. Mas ali, me
apaixonei perdidamente pelo cheiro, pelo homem que o carregava. É claro que não
disse uma palavra. Ele era desse tipo “inalcançável”. Fiquei apenas absorvendo,
tentando pegar cada partícula e engoli-las como se não houvesse amanhã. Guardar
pra sempre na memória, e quem sabe encontrar o mesmo cheiro, a mesma combinação
um dia.
De
fato, de todas as coisas que um coletivo num fim de tarde, hora de pico, com um
calor horrível, podia me trazer, um momento bom e simples assim, é divino.
Nenhum comentário:
Postar um comentário