segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Crônicas de ônibus.

          Faz um calor insuportável quando entro no ônibus. Ele está levemente cheio, e os únicos bancos vazios encontram-se aonde o sol bate. Rapidamente analiso se prefiro morrer de calor sentado ou morrer de cansaço em pé. O dia de trabalho e faculdade me faz escolher a primeira morte. Sento sozinho num banco ao sol, implorando a Deus que a viagem seja curta, mesmo eu sabendo exatamente quanto tempo levo para chegar até o meu destino de todos os dias.    
      Sem prestar muita atenção, seja pelo inicio de insolação ou pura distração, um rapaz senta ao meu lado. Aquela olhada rápida de “quem é que está sentando ao meu lado no ônibus” me faz enxergar que o rapaz é lindo. E puta merda, que lindo. Desses que a gente, normalzinho, pensa “como que Deus dá tanto pra uns, e tão pouco pra outros?”. Mas não é a barba, ou as tatuagens, ou a certeza que ele deve ser muito foda e fazer um curso muito foda pra ter tanto estilo assim, afinal é um ônibus de rota universitária, mas o que mais me impressiona, que me deixa em êxtase, ali, a sei lá quantos graus Celsius, ferrado, cansado e com fome no transporte público, é o cheiro de cigarro mentolado que ele exala. Podia ser cigarro comum, podia ser cheiro de qualquer coisa, até aquele cheiro de homem. Mas era cheiro de cigarro mentolado, e era forte pra chegar até mim. Eu nunca tinha reparado em ninguém com essa característica, confesso. A gente repara em cheiro de perfume, ou cheiro de pele, né não? Mas talvez por eu ser um pseudo-fumante de balada e momentos tristes, talvez por amar cigarro mentolado, talvez pelo cheiro ser adocicado e convidativo. Não sei. Mas ali, me apaixonei perdidamente pelo cheiro, pelo homem que o carregava. É claro que não disse uma palavra. Ele era desse tipo “inalcançável”. Fiquei apenas absorvendo, tentando pegar cada partícula e engoli-las como se não houvesse amanhã. Guardar pra sempre na memória, e quem sabe encontrar o mesmo cheiro, a mesma combinação um dia.
         De fato, de todas as coisas que um coletivo num fim de tarde, hora de pico, com um calor horrível, podia me trazer, um momento bom e simples assim, é divino. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário