Você
vem, triste demais. Você vem, dizendo que não presta, que não sabe se apaixonar.
Era um cara tipo desses, que antes de ser apresentado a alguém, logo alertam
para a tal pessoa “olha, esse é meio triste” “sim, ele é meio deprimido, não
sai muito de casa”. Ficas confuso, em como logo te expurgam, logo te excluem.
Oras, seus próprios amigos dizem que não prestas, que és um peso. Você, sempre
triste demais, pensa sempre demais. Acende um cigarro, e fica embriagado com a
própria fumaça. Gostas da pressão baixa, da sensação de perda que um Marlboro
pode-lhe dar. Você é desses tristes sim, sozinhos e melancólicos demais. Mas
tristeza não é algo que deva ser temida. Ela faz parte, ela te conecta com o
que você tem de mais puro, lá dentro, pulsando, ainda vivo e quente. Tristeza
não deve ser uma constante, mas afastada também não.
“Mas
olha, ele é desses deprimidos, coitado”. Coitado não, babacas! Bobocas! A
melancolia dele, o seu sofrimento, seu desanimo pra sair, sua vontade de filmes
preto e branco, músicas da Nora Ney aos sábados desertos em casa é só... Ele. É
o que ele é. Não precisa dessa obrigação de uma foda, uma trepada, um sexo
sempre. Conversas consigo mesmo, cantas consigo mesmo, embebeda-se consigo
mesmo. Faz sexo consigo mesmo. E o que tem de errado nisso? Errado é uma ova!
Você
vem, triste demais. Mas essa tristeza acalma, apazigua, traz paz. Sua
constância, sua certeza, seu jeito de “não quero isso mais, mas continuo a
sorrir”... Alguns entendem.
Apaga
o cigarro. Acaba Nora Ney e começa Nina. Sentes que estar nu em sua casa é a
melhor coisa do mundo. Nem mesmo um Big Tasty do Mc Donalds o faria mais feliz.
Nem mesmo sentir-se completo faria mais feliz. Quem sabe ali, naquele momento
só, fosse sim a sua alma completa. Não da forma como é imposto, ao lado de
alguém.
Acende
um cigarro, e falas consigo mesmo em francês, pra treinar, diz. Você é desses,
misteriosos e sem querer, sexys. Daqueles com cabelo na metade do olhar,
sorriso inocente, tênis sujos e um gosto irremediável por café.
Você vem, triste
demais. Traz paz ou angustia. O último para aqueles que, por medo, por
desconhecimento, por ignorância, por burrice ou simples soberba, acham que são
felizes demais para um dia serem vulneráveis. Para um dia serem como você. Para
um dia, estarem em casa, olhando pro teto, no chão da cozinha, fumando e pensando
em tudo que fez, em tudo que fará e em como o mundo é ruim, e você uma merda,
triste, doente e inútil, mas... Que tudo pode melhorar.
Mesmo
que venhas triste demais, venhas. O mundo não é só luz, nem só sombra. O mundo
não é só Paris, nem só São Paulo. O mundo não é só café preto e amargo, ou
cappuccino doce. O mundo é plural. O mundo não é só sexo a dois, o mundo não é
só penetração com um pau só. O mundo é maior do que tudo isso. O mundo tem
muita gente. Muita gente muito feliz, muita gente muito triste, muita gente que
é tudo e nada. Mesmo que venhas triste, venha.
Acenda
teu cigarro, mesmo com o câncer iminente. Fume seu beck, mesmo que isso
signifique umas besteiras a mais. Mesmo triste, mesmo melancólico, mesmo sem a
certeza de amanhã, venhas sendo você mesmo. E só você.
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